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Capítulo 1 - O Homem Meticuloso com as Dívidas
O desconhecido escolheu Finn Mercer no meio de toda a plataforma, e Finn nem sequer viu isso acontecer.
Estava a olhar para os carris. O expresso das 16h15 para Marlowe Village deslizou para a estação com um zumbido elétrico baixo, as carruagens a alinhar-se com pequenos estalidos, e Finn observou os rostos como fazia sempre, procurando no meio da multidão aquele que importava. O pai deles devia vir naquele comboio. Não vinha. Uma mulher com uma mala de rodinhas. Um adolescente enterrado nos auscultadores. Um tipo a dobrar uma bicicleta. Nada de Gavin Mercer.
— Ele não veio — disse Finn.
— Apanhou o regional. — Jude estava encostado a um pilar, a atirar uma bola de ténis uns centímetros acima da palma da mão e a apanhá-la, uma e outra vez, como fazia quando estava tão aborrecido que quase explodia. — A mãe mandou-te mensagem há tipo dez segundos. Sabias isso se alguma vez visses o telemóvel em vez de ficares a olhar para desconhecidos.
— Eu vejo o telemóvel.
— Olhas para o telemóvel como um gato olha para um banho.
Finn não discutiu, porque o expresso já estava a receber passageiros e um homem já vinha na direção deles, e era essa a parte que Finn iria recordar mais tarde, vezes sem conta. A suavidade com que tudo aconteceu. O aspeto perfeitamente normal que teve.
O homem avançou contra a multidão que começava a dispersar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Blazer azul-marinho, calças caqui, sapatos de couro gastos e amaciados nas pontas. Um pequeno saco de viagem ao ombro. Parecia alguém que viajava por trabalho e deixara de achar isso interessante há anos.
— Desculpem — disse ele. Simpático. Com o tom de quem pede um favor, não de quem provoca alarme. — Será que vocês os dois me podem dar uma ajuda?
Levantou uma nota de cinco dólares entre dois dedos.
— Conseguem trocar-me cinco? Cinco notas de um. — Inclinou a cabeça na direção do comboio. — Dividi uma viagem com um amigo neste comboio na semana passada e ainda lhe devo. — Um pequeno sorriso surgiu então, rápido, perfeito, e desapareceu. — Ele não se esquece. Eu também não. A máquina só dá notas de vinte e a fila do café está ridícula. Safavam-me.
— Temos notas de um — disse Jude, já a ir buscar a carteira, porque Jude avançava sempre primeiro para tudo.
— Jude. — Finn ouviu-se dizer em voz baixa, inseguro, a palavra a sair-lhe cerca de meio segundo tarde demais para servir de aviso, e soube-o. A história fazia sentido. A plataforma era pública. Estavam juntos. E o homem apenas esperava, paciente, a nota estendida, enquanto atrás dele o comboio emitia o aviso sonoro dos dois minutos.
Jude contou cinco notas de um para a mão do homem. O homem pousou a nota de cinco na palma de Finn com um aceno, ajustou melhor o saco de viagem ao ombro e virou-se para o expresso com um passo fácil, calmo, que nem por um instante pareceu apressado. Entrou a bordo quando as portas apitaram antes de fechar. O comboio partiu.
Aquilo tudo demorara menos de um minuto.
— Foi estranho — disse Jude.
— O que foi estranho?
— O amigo dele vinha no expresso, certo? O comboio já estava aqui. Então porque é que o tipo não saiu?
Finn olhou para as luzes traseiras a deslizarem para leste, na direção de Marlowe Village. Não tinha resposta, e não ter resposta era uma sensação de que ele não gostava nada.
— Talvez estivesse noutra carruagem — disse Finn. — Vamos. O pai vem no das 17h10. Temos uma hora, e a loja tem chá gelado.
— Agora sim, estás a falar a minha língua.
Desceram as escadas até à rua. Finn caminhava com a mão no bolso, e o polegar continuava a encontrar a borda da nota de cinco, e havia qualquer coisa nela que lhe arranhava a cabeça como uma etiqueta de camisa na nuca. A meio da passadeira, tirou-a do bolso e ergueu-a contra a luz.
O selo estava errado.
Não muito. Se não estivesse a olhar diretamente para ele, nunca teria reparado. Mas o verde do pequeno selo do tesouro estava baço. Desbotado. Como um marcador que alguém tivesse deixado tempo demais numa janela ao sol. O papel era fresco e rígido, rígido o suficiente para estalar quando o dobrou, e a faixa de segurança parecia pintada por cima em vez de embutida no papel.
— Vens ou quê? — chamou Jude da porta da loja.
— Vou.
Finn voltou a dobrá-la e enfiou-a no bolso. Devia ser das luzes da estação. Aquelas lâmpadas amarelas e velhas do cais faziam tudo parecer meio doente. Repetiu isso a si mesmo durante todo o caminho até entrar.
Mesmo assim, a mão ficou no bolso.
O ar condicionado bateu-lhes como uma parede, gelado depois do calor húmido de verão. Jude foi direto ao expositor frigorífico e ficou ali a estudar os chás gelados como um homem a desarmar uma bomba.
— A corrida é daqui a dois fins de semana — disse Jude por cima do ombro. — O Tony diz que o Whaler da família dele vence qualquer barco na baía. O Tony também diz muita coisa.
— Traz as de sal e vinagre — disse Finn, porque os monólogos do irmão funcionavam melhor quando vinham acompanhados de uma tarefa.
Levou duas garrafas e as batatas até ao balcão. Na chapa com o nome do empregado lia-se MOSS. Finn pousou a nota de cinco.
Moss pegou nela em piloto automático, ainda meio virado para a caixa registadora. Depois parou. A expressão dele mudou por completo, como muda a cara de alguém quando uma coisa rotineira de repente deixa de o ser.
— Espera lá um segundo — disse ele, erguendo a nota contra a luz.
O estômago de Finn deu uma volta lenta. Ao lado dele, Jude ficou imóvel, a bebida esquecida na mão.
Moss meteu a mão debaixo do balcão, tirou de lá um marcador curto e traçou uma linha rápida na margem. A linha ficou castanha-escura. Devia ter ficado amarela. Finn sabia isso, de alguma forma, antes de Moss dizer uma palavra.
— Não posso aceitar isto — disse Moss. Calmo. Firme.
— Porque não? — Jude inclinou-se para a frente.
— Porque é falsa.
A palavra caiu como qualquer coisa que se deixasse cair de uma prateleira. Finn ficou a olhar para a nota presa entre os dedos do empregado, e o selo verde esbatido já não tinha nada de subtil. Estava a gritar. Era exatamente aquilo em que ele tinha reparado na passadeira e depois se convencera a ignorar, e também se lembraria disso.
— Acabámos de a receber — disse Jude. — Um tipo na estação. Queria troco.
A expressão de Moss suavizou-se, mas ele pousou a nota direita no balcão e empurrou-a de volta para eles, como se tivesse acabado de lhe tocar para sempre. — Desculpem, rapazes. É a terceira este mês. O mesmo selo morto, o mesmo papel liso. — Tocou-lhe com a ponta do dedo. — Numa nota verdadeira, sente-se a tinta em relevo. Esta é lisa. — Virou o telemóvel para eles, com uma faixa de notícias a brilhar no ecrã: VAGA REGIONAL DE NOTAS FALSAS ATINGE PEQUENOS COMÉRCIOS. — Bombas de gasolina, mercearias, lojas de esquina. Alguém anda a espalhá-las por todo o lado.
— Fomos enganados — disse Jude. Não era uma pergunta.
— Parece que sim. — Moss observou-os por um instante. — Como era o tipo?
Finn descreveu-o. Blazer azul-marinho. Calças cáqui. Saco de viagem em pele. Voz calma, pedido específico, apanhou o expresso para este.
Moss assentiu devagar. — Ele sabia exatamente a quem pedir.
E foi essa a parte que se meteu debaixo da pele de Finn e lá ficou. Não os cinco dólares, embora perdê-los doesse. Foi a imagem a encaixar de repente: o homem a varrer a plataforma com o olhar, todos aqueles adultos pendulares com os cafés e aquela imobilidade cuidadosa, e a escolher os dois miúdos. Não porque fossem os mais próximos. Porque eram miúdos. Porque os miúdos não olham duas vezes. Avaliara-os num relance e arquivara-os como alvo fácil.
— Então o que fazemos com isto? — perguntou Finn.
— O banco regista-a e entrega-a às autoridades. — Moss encolheu os ombros, sem dureza. — É praticamente tudo o que podem fazer. Desculpem. Quem anda a passar estas notas conta com as pessoas estarem demasiado ocupadas para olharem duas vezes.
Deixaram as bebidas no balcão. Lá fora, o calor voltou a fechar-se sobre eles, e Finn dobrou a nota falsa com cuidado e enfiou-a no bolso da frente, separada do dinheiro verdadeiro, como se aquilo pudesse pegar.
O pai deles já estava na plataforma quando voltaram, a sair do regional das 5:10 com a mala a tiracolo cruzada no peito e um copo térmico numa mão. Parecia cansado, com as rugas à volta dos olhos bem vincadas. Depois viu-lhes as caras e o cansaço foi para outro sítio.
— Cá estão os meus especialistas em transportes — disse Gavin, dando uma palmada no ombro de Jude. A mão ficou ali parada. Os olhos passaram de um filho para o outro, rápidos, com aquele olhar que usava nas pessoas que estavam prestes a mentir-lhe e nas pessoas que estavam prestes a contar-lhe uma coisa má. — O que aconteceu?
— Fomos enganados — disse Jude, porque Jude nunca conseguia esperar.
Finn tirou a nota falsa e entregou-lha. Gavin levantou-a, inclinou-a, e Finn viu o pai encontrar o selo em menos de dois segundos. Alguma coisa se mexeu por trás dos olhos dele e foi cuidadosamente guardada.
— Selo baço — disse Gavin, em voz baixa. — Papel liso. Notas de cinco e de dez.
— Sabes alguma coisa sobre isto? — perguntou Jude.
— Tenho estado a ajudar num caso federal de falsificação de moeda. Três condados. — Olhou para eles, e houve um clarão de qualquer coisa ardente que ele conteve antes que chegasse a instalar-se. — As falsificações começaram em lojinhas pequenas. Depois, há umas semanas, o volume disparou. — Segurou a nota esticada entre dois dedos. — Tirem-me fotografias dos dois lados antes de eu a pôr num saco de provas. — Finn tirou. Gavin meteu-a numa bolsa transparente para provas, tirada da pasta a tiracolo, e guardou-a num bolso interior. — Vamos. Contem-me tudo pelo caminho.
Fizeram os seis quarteirões até casa, os rapazes a passarem a história um ao outro, Gavin a ouvir sem interromper uma única vez, o passo a abrandar à medida que os detalhes se acumulavam. Não lhes deu sermão. Perguntou exatamente uma coisa, no alpendre da frente, e perguntou-a uma só vez.
— Se alguma coisa vos parecer errada, param. Não vão atrás, e não lidam com isso sozinhos. Telefonam-me. Essa é a regra.
— Não sabíamos que era errado até o Moss nos dizer — disse Finn.
— Eu sei. — A boca de Gavin repuxou-se, quase num sorriso, mas não chegou lá. — Reparaste no selo, Finn. Para a próxima, confia mais cedo nessa sensação. — Olhou para Jude. — Os dois têm bom olho. — Tocou no bolso interior onde estava a bolsa de provas. — Agora vão lavar as mãos. A vossa mãe fez legumes e, pelos vistos, espera-se que todos sobrevivamos.
Laura bastou olhar uma vez para os três a entrarem pela porta para pousar a faca. Ouviu a versão curta ao balcão e não entrou em pânico, porque esse não era o seu jeito. Limitou-se a atravessar a cozinha, pousou uma mão espalmada na cabeça de cada um, como se estivesse a confirmar que eram reais, e disse: — Pronto. Estão os dois bem. Isso vem primeiro. — Depois, seca, por cima do ombro, enquanto voltava para o fogão: — Além disso, ouvi dizer que abandonaram as batatas fritas. Devem-me batatas fritas.
— Eu sabia que aquelas batatas fritas ainda me iam assombrar — disse Jude.
Depois do jantar, Finn sentou-se à secretária que partilhava com Jude, o portátil aberto, o entardecer a ficar roxo na janela. Jude estava esparramado na cama, a atirar a bola de ténis ao teto e a apanhá-la com uma só mão, e Finn percebeu que os cinco dólares perdidos tinham acabado de azedar até se transformarem em algo mais útil.
— Ele escolheu-nos — disse Jude para o teto. — De toda a gente naquela plataforma, escolheu-nos porque parecíamos alvos fáceis.
— Tinha a história toda preparada. — Finn continuou a deslizar no ecrã. Dois artigos locais, um alerta do xerife, todos a falar do mesmo selo baço, do mesmo papel demasiado liso, das mesmas notas pequenas passadas em estações e lojas. — Troco certo. Um amigo no comboio. Depois desaparecia.
— Então já o fez antes.
Finn parou de percorrer o ecrã. Abriu um documento em branco e escreveu uma linha no topo, a negrito, e depois uma segunda linha por baixo, porque era a única parte de toda aquela tarde que não lhe saía da cabeça.
Desconhecido na estação. Expresso para Marlowe Village. Selo verde baço.
Onde é que ele arranjou a nota?
Lá em baixo, a porta da frente abriu-se e fechou-se. Finn ouviu a voz do pai baixar para uma chamada telefónica que ele não devia ouvir, três cidades e um caso federal a fecharem-se atrás de uma porta de madeira, e, algures lá fora, na escuridão, as pessoas por trás dos selos desbotados continuavam a trabalhar.
Finn puxou o documento para mais perto e começou a escrever.
Capítulo 2 - O Casaco Cinzento
Chase Morgan já estava metido em sarilhos, e ainda nem sequer era o segundo tempo.
Finn avistou-o do outro lado do pátio, parado no canto destruído do canteiro, com uma pá de jardinagem na mão e claramente sem qualquer plano para ela. Uma hidrângea jovem jazia partida pelo caule, perto das sapatilhas dele. O Sr. MacBride, o contínuo, estava diante dele de braços cruzados, sem dizer nada, o que era pior do que dizer fosse o que fosse.
— O Chase tentou a troca da maçã com pimenta e atravessou o canteiro a correr — disse Jude, aparecendo ao ombro de Finn com uma barra de cereais. — Vi tudo. O miúdo dos óculos fez um barulho tipo chaleira.
— A maçã de quem?
— Do Chase. Ele faz aquela coisa da troca. Baixa-se, deixa cair uma, apanha a outra. — Jude arrancou metade da barra de cereais com uma dentada. — O MacBride estava mesmo ali, e o Chase atravessou-lhe o canteiro a correr. Tipo, mesmo pelo único sítio onde era garantido que ia ser apanhado.
Finn viu Chase apontar para a terra achatada, lançar-se no que quase de certeza era uma explicação, e ser interrompido por uma única palavra seca de MacBride, que se ouviu do outro lado do pátio.
— Fora.
— Devíamos ajudá-lo — disse Finn.
— Devíamos mesmo ajudá-lo. — Jude já ia a caminho. — Preciso de ouvir a explicação dele.
Atravessaram a relva. MacBride virou-se quando eles se aproximaram, olhou uma vez para os dois e pareceu decidir que davam menos trabalho do que o que já tinha à frente.
— Sabem usar uma pá de jardinagem — disse ele. Não era uma pergunta. Era um desafio.
— A nossa tia tem um jardim — disse Finn.
MacBride resmungou e empurrou duas pás para eles. — Quinze centímetros de profundidade. Arranquem a partida. Mudas novas do carrinho. Regar depois. — Apontou para Chase com a terceira pá. — Ele escava. Vocês os dois garantem que isto sobrevive.
Afastou-se em direção ao muro do fundo e ao seu corta-sebes.
Chase descaiu assim que MacBride lhes virou as costas. — Isto é opressão — anunciou. — Trabalho forçado a sério. Contem a minha história.
— Enfiaste a cara num canteiro — disse Jude.
— Caí com dignidade.
Puseram mãos à obra. O sol subiu e a terra cheirava a cobertura vegetal e a chuva, enquanto Chase narrava o próprio sofrimento com a voz de um documentário sobre adversidades. Sempre que MacBride olhava para eles, Chase começava a escavar com uma energia súbita e tremenda, e parava no instante em que o homem desviava o olhar.
— Sabem o que torna isto ainda pior? — disse Chase, ajeitando uma muda no buraco com dois dedos, como se a estivesse a deitar na cama. — Eu tinha planos. Planos importantes com cupões.
Finn levantou os olhos. — Tinhas o quê?
Chase tirou um papel dobrado do bolso da sweat com capuz, com um floreado de mágico. — Contemplem. Cem dólares em pizza grátis. Programa de recompensas da Speedy Stop.
Finn pegou nele. Comic Sans. Uma pizza em clipart inclinada num ângulo de bêbedo. Um código de barras desenhado a marcador preto, com as linhas tremidas e uma delas a voltar para trás sobre si própria.
— Foste tu que fizeste isto — disse Finn.
— Gastei minutos reais nisto. — Chase tirou-lho e alisou-o contra o joelho. — Alguém tem de tentar passá-lo no leitor, senão a arte fica desperdiçada.
Finn continuou a olhar para o cupão depois de Chase o guardar no bolso. A promessa absurda. O valor dito com confiança. A negligência alegre e deliberada daquilo, uma coisa feita para ser aceite à primeira vista e nunca resistir a uma segunda.
Pensou numa nota impecável de cinco dólares e num homem de voz simpática com uma história sobre um amigo no expresso.
— O quê? — perguntou Jude, a observar-lhe a cara.
— Nada. — Finn pressionou a última muda contra a terra. — De repente, os maus cupões falsos estão a incomodar-me.
Acabaram em vinte minutos. MacBride inspecionou a fila, cutucou uma muda com a bota e fez-lhes um aceno que, em linguagem de contínuo, era praticamente um desfile.
— Vai sobreviver — disse ele, e aquela foi a crítica.
Chase olhou para a sweat coberta de terra, em desespero. — Cheiro a centro de jardinagem.
— Cheiras a centro de jardinagem e a más decisões — disse Jude.
— Finalmente, alguém me compreende.
A campainha tocou. Entraram.
À hora de almoço, o caso da falsificação estava instalado no fundo da mente de Finn como um rádio em volume baixo, a tocar por baixo de tudo. Levou o tabuleiro até à mesa de sempre e encontrou o grupo já a reunir-se.
Tony Prieto tinha os pés em cima do banco e um guardanapo estendido à frente, a desenhar o casco de um barco com a concentração absoluta de um cirurgião. Calla Shaw estava sentada na ponta, com o telemóvel levantado diante da cara, o que qualquer pessoa interpretaria como uma rapariga ao telemóvel. Finn sabia que não era bem assim. Os olhos dela não estavam no ecrã. Seguiam a sala por cima dele, de mesa em mesa, a ler rostos, a catalogar.
Chase deixou-se cair no banco com um colapso teatral. — Trabalhei a terra — disse. — Talvez nunca mais volte a ser o mesmo.
— Plantaste três flores — disse Jude.
— Ao sol direto. Vi coisas.
— Eu estive ao teu lado o tempo todo.
— Então sabes pelo que passei.
Tony não levantou os olhos do guardanapo. — A caminhada é no sábado. Willow River, o trilho comprido. Vai toda a gente.
— Eu vou — disse Jude.
— Tu estás sempre alinhado — disse Tony. — Eras capaz de entrar a pé num vulcão se alguém prometesse petiscos. Virou o guardanapo para mostrar um casco comprido e baixo, com uma proa afiada como uma lâmina. — Era isto que eu construía se a minha família me deixasse tocar nas ferramentas boas. Não deixa, porque ninguém respeita a inovação.
— Isso não é um barco — disse Chase. — É um tubarão que desistiu da vida.
— Isto é um casco planante. Tony voltou a virá-lo para si e acrescentou uma linha à linha de água. — Tu não perceberias. Desenhas cupões falsos.
Chase levou a mão ao peito como se o tivessem nomeado para um prémio. Tirou o cupão e deslizou-o pela mesa. — Momento perfeito. Cem dólares em pizza. O teu orçamento para combustível.
Tony pegou nele e estudou-o com uma gravidade fingida. — O código de barras está feito a lápis de cera.
— Marcador. E é artesanal.
— Fraude artesanal. Tony meteu-o no bolso. — Vou emoldurá-lo para o barco. Voltou ao casco. — A tua carreira criminosa atingiu o auge, Morgan.
Para eles, era tudo uma piada. O cupão falso, a ideia inteira de uma nota falsa. À mesa, tinha graça, era um truque de festa, uma coisa que acontecia a outras pessoas em alertas de notícias. Não sabiam do homem na estação. Não sabiam que, no sábado, dois deles tinham sido escolhidos no meio de uma multidão como fruta madura e recebido uma nota feita para enganar exatamente o tipo de pessoa que estava ocupada, confiava nos outros e despachava as coisas depressa.
Finn ainda estava a arquivar aquilo na cabeça, ainda a observar dinheiro para o qual nem sequer estava a olhar, quando Calla pousou o telemóvel.
Fê-lo em silêncio, mas foi precisamente o silêncio que fez barulho. A mesa não reparou. Finn reparou, e Jude também, porque Jude reparava nas pessoas da mesma forma que Finn reparava nos pormenores errados.
— A Pollie teve um sábado mau — disse Calla. Voz leve. Por baixo, uma corrente fria e firme.
— Mau como? — perguntou Finn.
— Um cliente fez qualquer coisa. Calla virou o telemóvel com o ecrã para baixo, coisa que nunca fazia. — A Pollie não me quer contar grande coisa, só que a abalou. E a minha mãe não se abala assim. Encolheu os ombros, mas o gesto não conseguiu disfarçar nada. — Se ela está perturbada, foi mau.
— Conta-nos quando puderes — disse Jude. Não era uma piada. Tinha parado de bater com o joelho debaixo da mesa.
— Quando ela me deixar. Calla voltou a pegar no telemóvel, e os olhos dela regressaram à leitura da sala, mas agora mais devagar. Distraídos.
Finn arquivou aquilo. Pollie Shaw geria um salão movimentado na zona comercial, daqueles sítios que viviam de dinheiro vivo, clientes sem marcação e mãos que nunca chegavam. Depois de sábado, a palavra abalou soava de outra maneira do que teria soado uma semana antes.
A mesa passou para a caminhada, o trilho, a questão de Chase conseguir sobreviver a seis quilómetros sem um lanche. Mas Finn cruzou o olhar com Calla uma vez, do outro lado da mesa, e ela devolveu-lhe um pequeno olhar que dizia a mesma coisa que a cabeça dele já estava a dizer.
Agora não. Mas também não era nada.
Na manhã seguinte, Calla não estava junto ao cacifo.
Finn verificou duas vezes antes do primeiro toque e voltou a verificar no intervalo. O lugar dela junto à escadaria sul estava vazio, com o grupo habitual de amigas a orbitar uma ausência. Mandou-lhe uma mensagem. Calla respondia às mensagens. Sempre. Na hora. Aquele silêncio assentava-lhe mal no estômago.
Encontrou-a durante o furo, na biblioteca, enfiada num cubículo de estudo atrás dos computadores, a olhar para o telemóvel apagado, com o cabo do carregador esquecido junto ao cotovelo. O polegar dela não se mexia.
— Olá — disse Finn, sentando-se na cadeira em frente dela.
O sorriso dela chegou meio segundo tarde demais. — Olá. Estou bem. Só cansada.
— O teu telemóvel morreu.
Os olhos dela desviaram-se para a porta. Não para o relógio. Para a porta. Depois voltaram para ele, e o cansaço desapareceu-lhe do rosto, dando lugar a qualquer coisa mais dura por baixo.
Jude apareceu detrás da estante das revistas um minuto depois, com uma barra de cereais meio aberta na mão. Bastou-lhe olhar para Calla para parar de mastigar. Sem piadas. Sem pose. Limitou-se a puxar uma terceira cadeira e a sentar-se, e a barra de cereais desapareceu-lhe no bolso, esquecida.
— Pollie? — perguntou Finn.
Calla levantou-se, agarrou na mala e levou-os para o canto mais afastado, passando pela janela que dava para o parque de estacionamento. Sentou-se de costas para a parede, como se a sala inteira tivesse de ser vigiada. Quando falou, fê-lo em voz baixa e depressa, como quem diz uma coisa que prometeu não contar.
— Ela fez-me prometer que não contava. Está envergonhada e furiosa, e não quer que as pessoas na escola tenham pena dela. — Calla olhou para cada um deles. — Portanto, ninguém repete isto.
— Ninguém — disse Jude.
Calla assentiu uma vez e deixou sair tudo.
— Sábado. O salão estava cheio, quatro clientes sem marcação, duas marcações atrasadas, telefone sem parar. Entra uma mulher, toda arranjada, absolutamente calma, e pede uma escova. A Pollie arranja-lhe um espaço. Ela paga com uma nota de cinquenta, a minha mãe dá-lhe quinze de troco, e ela vai-se embora. — Os dedos de Calla apertaram-se em volta do telemóvel sem bateria. — O serviço custava trinta e cinco.
Finn fez as contas sem querer. — Então ela perde os cinquenta todos.
— E ainda deu gorjeta à rapariga da lavagem porque achou que tinha recebido uma nota grande. — O maxilar de Calla ficou tenso. — No domingo, o multibanco rejeitou a nota. Na segunda, a funcionária do banco verificou-a e ficou com ela para fazer relatório. — Meteu a mão no casaco. — Depois a minha mãe encontrou outra da mesma hora de confusão. O mesmo selo.
Pousou uma nota de cinquenta dobrada na mesa, entre eles, e alisou-a.
Finn pegou nela e virou-a para a janela. O papel parecia errado debaixo do polegar, demasiado liso, quase encerado. O retrato estava nítido, a impressão limpa. Mas o selo verde do Tesouro, à direita, parecia baço e plano, como se a cor lhe tivesse sido sugada.
Ele não precisava de o dizer. Já a tinha visto uma vez, dobrada no próprio bolso, erguida à luz de um candeeiro da estação.
— Igual à nota de cinco da estação — disse Jude, em voz baixa. Finn desbloqueou o telemóvel, abriu a fotografia que tirara e virou-o para eles. O selo da nota da estação. O selo da nota de cinquenta do salão. O mesmo verde esbatido. A mesma tinta baça, sem vida.
— Mesmo fim de semana — disse Finn. — Zona diferente da cidade. O mesmo defeito.
— Isso não é aleatório — disse Jude.
— Não. — Finn pousou a nota de cinquenta.
Calla voltou a dobrá-la e enfiou-a num saco transparente de sanduíches. — A minha mãe disse que o teu pai pode entregar isto. Ela não quer entrar na esquadra sozinha.
— Ele pode tratar disso — disse Finn. — Como era a mulher?
Calla recitou como se já tivesse repassado aquilo uma centena de vezes na cabeça. — Trinta e poucos. Casaco cinzento, de corte elegante, abotoado apesar de estar calor. Óculos escuros dentro do salão. Mala de cabedal cara, sem logótipo. Pagou depressa, não meteu conversa, não marcou nova hora. Seguiu na direção da marina. — Calla levantou os olhos. — Onze minutos, talvez. A minha mãe lembra-se de onze minutos no meio de seis horas de correria. Foi assim tão estranho.
O casaco cinzento ficou ali, em cima da mesa, entre eles, invisível e frio. Finn conseguia vê-la tal como Calla a desenhara. Abotoada até ao pescoço em pleno tempo quente. Óculos escuros num salão iluminado. Uma mulher feita para ser vista uma vez e nunca uma segunda, que escolhera a hora mais movimentada do dia mais movimentado e uma mulher sem tempo para verificar a nota que tinha na mão.
— Ela escolheu a Pollie — disse Finn. — Tal como o homem da estação nos escolheu a nós. Ocupados, confiantes, sem tempo para verificar. Ela não passou uma nota falsa por acidente. Era esse o trabalho.
O rosto de Calla mudou, a preocupação a queimar-se até se transformar em algo mais duro. — A Pollie trabalha seis dias por semana. Tem duas assistentes para pagar. Aqueles cinquenta e a gorjeta são dinheiro a sério para ela. — A voz dela baixou. — E acha que a polícia vai agir como se ela tivesse obrigação de ter percebido.
— Ela estava ocupada, não era estúpida — disse Finn. — É com isso que eles contam.
Durante um segundo, ninguém disse nada. Depois Jude, que estava sentado em cima das mãos, deixou escapar.
— É isso que me lixa. — Jude tentou dizê-lo de ânimo leve, como fazia para cortar a tensão, mas as palavras caíram como uma pedra. — A Pollie perde cinquenta dólares e aquela mulher nem abranda. A quantas pessoas fazem eles isto num só dia?
Ninguém se riu. Não era esse tipo de piada.
A campainha tocou para o quarto tempo. Juntaram as mochilas, e Chase encontrou-os no movimento do corredor, viu-lhes as três caras e o sorriso caiu-lhe do rosto como um prato.
— O que aconteceu?
Calla deu-lhe a versão curta, sem mencionar o nome da Pollie. Chase ouviu tudo até ao fim sem uma única interrupção, o que talvez fosse um recorde pessoal.
— Está bem — disse ele quando ela acabou, e o tom teatral desapareceu-lhe da voz, só por um segundo. — Conheço o administrador do grupo dos comerciantes locais. Posso publicar um aviso, sem nomes, sem nada sobre a Pollie. Só o selo esbatido e a burla nas horas de maior movimento. — Encolheu os ombros, e o sorriso voltou a meio, mas os olhos continuaram sérios. — As pessoas leem as minhas publicações. Sobretudo porque têm medo de que eu tenha feito outro cupão de pizza.
— Obrigada — disse Calla, e disse-o a sério.
Tony apanhou-os junto à ala das ciências, claramente depois de ter ouvido a parte final. — A loja de isco do meu tio trabalha só a dinheiro aos fins de semana. Turistas, malta do ferry. — Já estava a escrever uma mensagem no telemóvel. — Vou perguntar se ele viu o selo.
O grupo dispersou em direção às aulas. Mas alguma coisa tinha mudado. Tinham entrado naquele corredor como cinco miúdos com uma caminhada marcada para sábado, e saíram do outro lado como algo com alcance, uma rede estendida pela cidade, cada fio preso a um sítio onde Finn não podia estar. Ele sentiu tudo encaixar.
Quase lhe escapou a última peça, e foi Chase quem a largou, como quem não quer a coisa, junto ao cacifo depois das aulas, enquanto Finn arrumava a mochila.
— Ah, o grupo dos comerciantes. — Chase encostou-se ao cacifo ao lado. — Perguntei a dois ou três lojistas mais velhos antes de publicar. O tipo da loja de ferragens ficou calado de repente. Depois disse: “Não levem isto lá para o moinho. A sério, não levem.”
Finn parou de arrumar. — Que moinho?
— Turner Mill. Aquele sítio de cereais de pequeno-almoço depois do rio. Supostamente aveia e grão. — Chase baixou a voz, e, por uma vez, não estava a fazer teatro. — Ele disse que quem manda lá é um tipo chamado Dock, e ninguém do grupo se mete com ele. Se andam notas falsas a circular, não se sobe aquela estrada a fazer perguntas, porque o Dock lembra-se de quem perguntou. — Chase encolheu os ombros, inquieto. — Depois começou a falar de silicone. Um homem adulto, apavorado com um tipo dos cereais. É estranho, certo?
Finn fechou o cacifo devagar. O homem do moinho com quem ninguém se mete. Guardou aquilo junto da nota de cinquenta, do casaco cinzento e do selo verde esbatido, tudo a empilhar-se agora numa coisa com arestas.
— Sim — disse Finn. — Estranho.
Jude aproximou-se dele, com a mochila num só ombro. — Estás com aquela cara.
— Que cara?
— Aquela em que reparaste em alguma coisa e agora eu também vou ficar preso a pensar nisso. — Jude deu-lhe um encontrão com o ombro. — A caminhada é sábado. Tenta não resolver a cidade inteira até lá.
Finn quase disse que não era nada. Que uma mulher bem-vestida, com um casaco abotoado, tinha posto uma nota falsa de cinquenta nas mãos de Pollie Shaw e seguido na direção da marina, e que um homem para lá do rio tinha lojistas de uma cidade inteira com medo de dizer o nome dele, e que os dois rastos traziam o mesmo selo verde esbatido: um guardado na fotografia no telemóvel dele, o outro fechado na mochila de Calla.
Em vez disso, pôs a mala ao ombro e seguiu o irmão para o parque de estacionamento, onde a luz da tarde se estendia baixa e dourada sobre as árvores, e o trilho junto ao rio se desviava por entre elas na direção de um moinho que ele ainda não tinha visto.
— Willow River — disse Finn. — Sábado.
Jude já ia a meio caminho das bicicletas. — Tenta acompanhar-me.
Capítulo 3 - Comida de Pequeno-Almoço
O trilho cheirava a sol nos pinheiros, e o Jude já ia à frente de todos, a andar de costas só para poder discutir.
— Então estamos de acordo — disse ele. — A mistura de frutos secos do Chase é um crime.
— É artesanal. — O Chase ergueu o saco por cima da cabeça como se fosse um troféu. — Produção pequena. Muito exclusiva.
— É marca branca. — A Calla tirou-lho da mão sem levantar os olhos do telemóvel. — Arrancaste o rótulo.
— Melhorei-a. Agora é misteriosa.
O Finn vinha no fim do grupo, que era onde gostava de estar. Dali conseguia vê-los todos ao mesmo tempo, aquela fila solta a arrastar os pés pelo trilho de Willow River entre carvalhos e pinheiros, e podia contá-los sem que ninguém percebesse que os estava a contar. Quatro deles, mais o Jude. O Chase com uma camisa de caminhada tão nova que ainda se viam as marcas das dobras. A Calla com um chapéu de sol, os polegares a mexerem-se no ecrã, o que significava que estava atenta a tudo, porque a Calla observava com mais atenção quando parecia menos interessada. O Tony, de mangas arregaçadas, a desenhar o casco de um barco nas costas da mão com uma caneta. E o Jude, lá à frente, a andar de costas, porque ficar quieto durante uma semana quase o tinha matado.
— As provas são na terça — disse o Tony, pondo-se ao lado do Jude. — Vais?
— Depende do que estiver a acontecer.
— O que é que alguma vez acontece em Port Arbor?
O Jude olhou de relance para o Finn. — Ficavas surpreendido.
O Finn manteve a expressão neutra e não disse nada. Tinham combinado, ele e o Jude, não falar do caso à frente de toda a gente. Não era por não confiarem no grupo. Era porque, no segundo em que se dizia rede de falsificações em voz alta diante de cinco pessoas, nascia um boato que já não se conseguia controlar, e o Finn gostava de coisas que conseguia controlar.
Atravessaram um ribeiro ao marco das duas milhas, por pedras lisas e escorregadias de algas verdes, com a água clara e fria a correr por cima delas. O Chase anunciou que era uma cabra-montês e provou imediatamente que não era. O pé fugiu-lhe e o Jude agarrou-o pela alça da mochila antes que ele caísse à água.
— Aquela água quase me assassinou — disse o Chase, com uma dignidade enorme.
— Usa as pedras secas. — O Jude apontou a linha por onde atravessar. — Ou então passa pela água. Os ténis secam.
Toda a gente passou pela água, porque tinham treze anos e ténis molhados eram uma piada, e o ribeiro encheu-se de gritos e salpicos. O Finn foi o último e certificou-se de que a fila inteira tinha atravessado antes de avançar. Não conseguia evitá-lo. O Chase gostava de dizer que o Finn contava coisas como as outras pessoas respiravam.
As árvores abriram-se para um prado que descia em direção a uma estrada, e, do outro lado da estrada, havia um celeiro gasto pelo tempo e uma banca de legumes com um letreiro pintado à mão. O Finn conhecia-a. Ele e o Jude tinham mapeado aquelas estradas secundárias num verão, de bicicleta, como mapeavam tudo.
— Água — disse Jude. — O Kane tem uma mangueira.
Sam Kane saiu do celeiro a limpar as mãos a um trapo antes de eles acabarem de atravessar o prado, o que significava que já os tinha visto lá de dentro. Era magro e curtido pelo sol, talvez com uns sessenta e cinco anos, e mexia-se como um homem que nunca desperdiçava um passo.
— Rapazes Mercer — disse ele. — Outra vez em explorações.
— A fazer caminhada — disse Finn. — Importa-se que bebamos água?
— A mangueira está ali. Estejam à vontade.
Amontoaram-se junto da mangueira e beberam diretamente dela, água fria de poço que sabia a ferro e fez Chase declarar que era a melhor água que já tinha bebido na vida. Sam Kane encostou-se ao suporte e observou-os como provavelmente observava o tempo, com paciência, sem pressa.
— Vão para o miradouro do rio?
— Esse é o plano — disse Tony.
— É bonito lá em cima. A água está baixa, mas continua límpida. — Kane fez uma pausa. Os olhos foram uma vez até à linha das árvores, a norte, e voltaram. — Vocês, rapazes, reparam nas coisas. Há outra coisa rio acima que eu preferia que o vosso pai soubesse.
Finn sentiu aquilo, aquele pequeno clique atrás das costelas, como uma peça a encaixar no sítio. Fechou a garrafa. — O que é?
— O Moinho Turner. Cerca de um quilómetro e meio rio acima, onde a velha estrada de acesso se bifurca. — A voz de Kane não subiu nem desceu. Manteve-se perfeitamente nivelada, e de alguma forma isso era pior. — O sítio esteve vazio durante anos. Depois, há uns meses, mudaram-s