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Capítulo 1 - Porquê Aqui?
A estrada do porto cheirava a sal, gasóleo e maré baixa, o que, para Finn Mercer, quinze anos, cheirava muito a seis da manhã de um domingo. Estava a ler a matrícula de um camião frigorífico parado ao ralenti no Cais Quatro, não porque suspeitasse de alguma coisa, mas porque ler matrículas era simplesmente algo que os seus olhos faziam, como outras pessoas estalavam os nós dos dedos.
O irmão dele, Jude, de catorze anos, passou por ele a toda a velocidade numa bicicleta elétrica cinzento-mate e dispersou uma autêntica assembleia de gaivotas.
— O Wi-Fi do ferry foi abaixo outra vez — anunciou Jude, sem abrandar nem explicar porque é que tinha ido verificar. — O porto inteiro funciona à base de algas e de um hamster muito cansado.
Finn apanhou-o na curva onde as docas de trabalho davam lugar aos cais dos ferries. O sol ainda estava baixo e agressivo, lançando sobre a água uma película fina de prata. Dentro de uma hora, o passadiço encher-se-ia de turistas com corta-ventos a condizer, mas, naquele momento, a vila pertencia às carrinhas de entregas, a um corredor determinado e a dois irmãos que tratavam os limites de Port Arbor como se fossem uma rota que lhes tivesse sido atribuída.
— Esquerda ou direita? — perguntou Jude, equilibrado, completamente imóvel, no sinal de stop sem pôr um pé no chão, como treinara durante dois verões só para dar cabo da cabeça a Finn.
Finn lançou um olhar ao horário de descargas colado à porta do mercado do peixe. — Direita. O camião da Anchor Line bloqueia a viela da doca até às sete.
— És a única pessoa viva que sabe de cor as horas das entregas de peixe.
— Alguém tem de saber.
Jude aumentou a assistência da bicicleta um nível. — Corrida até às escadas da fábrica de conservas.
— Nada de corridas. O cascalho junto à loja do isco está solto. Vais cair.
Mas Jude já tinha arrancado, pneus a zumbir, e Finn já ia atrás dele, porque era essa a forma das suas manhãs. Jude avançava com o corpo e Finn seguia com os olhos, e entre os dois conheciam todos os atalhos, todos os buracos no asfalto, todos os cães que iam ladrar e todos os cães que só iam pensar nisso.
Port Arbor encaixava na costa como um canivete dobrado. O porto de um lado, curvando-se em torno do terminal dos ferries. As colinas íngremes de pinheiros do outro. Tudo o que ficava no meio, as ruelas turísticas, os mercados de peixe e as vias de serviço empedradas, podia ser atravessado em dez minutos sobre duas rodas se uma pessoa fosse boa, e em oito se fosse Jude. Era uma vila feita para andar a pé, o que a tornava uma péssima vila para conduzir depressa. Para isso, era preciso ser esperto. Ou estar desesperado.
Estavam a passar pelo parque público de Stern Wharf quando o grito rasgou o asfalto.
Era Chase Morgan, de pé ao lado de um lugar de estacionamento vazio, com uma mão ainda suspensa no ar, no sítio onde devia estar o tejadilho de um carro. Tinha a boca aberta. O rosto inteiro ficara em branco, como um ecrã que perdera o sinal.
O carro estava a ir-se embora sem ele.
Era o descapotável azul-noite, o de dois lugares com capota de lona que o pai do Chase polia à mão todos os domingos, sem falta, na entrada de casa, como se fosse uma pequena religião azul. Naquele momento, recuava aos solavancos para sair do lugar e acertou num caixote do lixo com força suficiente para o mandar a girar pelo parque, com a tampa a voar.
O condutor usava um blusão escuro corta-vento e um boné puxado para baixo. Nada de rosto. Só mãos rápidas no volante e absolutamente nenhuma intenção de parar.
Durante um segundo inteiro, Finn bloqueou. O cérebro dele saltou logo para uma lista. Carro roubado. Ocupado. Em movimento. Alguém vai ser atropelado.
O cérebro de Jude não fez lista nenhuma. O cérebro de Jude tomou uma decisão. Ligou a assistência no máximo e disparou atrás do descapotável como se tivesse sido lançado de alguma coisa.
— Jude! — Finn já também estava em movimento, pneus a zumbir, pernas a tentar acompanhar uma escolha que, pelos vistos, já tinham feito. — Jude, devíamos chamar isto primeiro!
— Quando a central conseguir meter aqui um carro, ele já vai na estrada da costa! — Jude inclinou-se na curva para a Dock Street com tanta força que quase beijou uma pilha de nassas de lagosta. — Somos os únicos atrás dele!
Finn odiou que as contas batessem certo. A zona ribeirinha estava vazia, tirando um par de estivadores que mais pareciam estar na lua. O descapotável derrapou de traseira para a Harbor Row e o motor rosnou.
— Abre a curva — gritou Finn, com o guiador a tremer-lhe debaixo das palmas. — Ele vai raspar na entrada do beco.
E raspou. O descapotável arranhou um gradeamento metálico e deixou nele um rasto prateado e brilhante de tinta, depois enfiou-se no espaço estreito entre a peixaria e o escritório do ferry. Jude foi atrás, baixando-se por baixo de um portão de carga que balançava solto numa única corrente. Finn reparou em tudo sem querer. Rasgão novo no guarda-lamas do lado do passageiro. Farolim direito partido. Condutor curvado sobre o volante como um homem com um autocarro para apanhar.
No cais de carga, um trabalhador empurrava um contentor de gelo picado. O descapotável desviou-se. Jude desviou-se ainda mais, saltando com a roda da frente para cima do passeio e voltando a descer com um solavanco que fez a corrente dele chocalhar como dentes soltos.
— Apanhaste-o? — gritou Finn.
— Ganho-lhe nas retas. Perco-o nas curvas. — Os nós dos dedos de Jude estavam brancos. — Curvas são batota.
Irromperam para a via de serviço atrás das lojas do passadiço, e agora a manhã estava acordada. Uma carrinha do pão trabalhava ao ralenti junto à padaria. Caixas de alfaces estavam pousadas à porta da mercearia, a transpirar no frio. O descapotável avançou em cheio por uma pilha de caixas de cartão e lançou abas de papel canelado pelo ar como um bando de pássaros feios e assustados. Jude passou pelo buraco entre a carrinha e uma scooter estacionada, com o motor a gemer perante o insulto.
Finn manteve-se duas bicicletas atrás e obrigou-se a respirar de propósito. Havia qualquer coisa a incomodá-lo, mesmo a quase quarenta quilómetros por hora. O ladrão continuava a escolher as ruas erradas. Sempre para longe das avenidas principais. Sempre para dentro das ruelas estreitas, onde um carro comprido e baixo era uma desgraça à espera de acontecer. Se alguém acabasse de roubar um descapotável e quisesse desaparecer, acelerava pela Harbor Row acima, entrava na estrada costeira e sumia-se. Este tipo estava a fazer precisamente o contrário de desaparecer.
— À esquerda na Kettle! — gritou Finn.
Jude fez a curva com tanta força que o pneu de trás patinou numa camada viscosa de escamas de peixe. Conseguiu endireitar-se, disse uma palavra que o pai deles fingia não saber que eles conheciam, e continuou a pedalar com tudo. O ladrão também já estava a ter dificuldades. O espelho lateral do carro raspou numa esquina de granito e dobrou-se para trás com um estalo como uma régua partida; depois o descapotável guinou para a direita.
Para longe da colina. Para longe da autoestrada.
Em direção aos carris.
A linha ferroviária costeira seguia pelo limite interior da cidade, escondida atrás de um talude coberto de sumagre crescido e de uma vedação cansada de rede metálica. Ao lado corria uma estrada de manutenção em gravilha, usada pelas equipas de trabalho e, às quintas-feiras, pelos camiões da reciclagem. O descapotável saltou para a gravilha, lançando pedras, e Jude foi atrás dele sem sequer pestanejar.
A estrada ripostou. O xisto solto deslizou debaixo dos pneus de Finn. Jude passou muito além do que Finn teria considerado uma velocidade segura, derrapou uma vez, duas, quase deitou a bicicleta toda ao chão e, de algum modo, não caiu. O pó encheu a boca de Finn. Algures à frente e à esquerda, soou o apito de um comboio, longo e grave, como se o dia estivesse a aclarar a garganta.
Através da névoa, Finn viu o condutor olhar para baixo. Apenas um movimento rápido da cabeça, na direção do banco do passageiro, onde duas malas pretas e achatadas estavam entaladas debaixo de um casaco escuro. Depois para o relógio do tablier. Não era o olhar de um homem perdido. Era o olhar de um homem a confirmar se ainda estava dentro do horário.
Os armazéns começaram a apertar à volta deles. Caixas de sinalização. O ar ficou acre a creosoto e ferrugem. Mais à frente, a gravilha alargava-se para um desvio sob uma placa desbotada.
BRIAR JUNCTION.
O descapotável desapareceu atrás de um armazém de chapa ondulada durante seis ou sete segundos. Uma porta de passageiro bateu. Uma segunda sombra moveu-se na abertura, baixa e rápida, arrastando as duas malas achatadas por uma porta de serviço aberta. Depois o carro voltou a surgir, disparado, com o banco do passageiro vazio. Finn registou a mudança sem a compreender; Jude já estava a atravessar o talude.
Jude viu a abertura primeiro. Via sempre a abertura primeiro. Cortou a fundo por cima de um talude baixo, os pneus a rasgar ervas, tentando intercetar o descapotável antes que este conseguisse virar de volta para a cidade. Era agressivo de mais e provavelmente estúpido, mas resultou na mesma. Obrigou o ladrão a escolher.
As luzes de travão acenderam-se em cheio. O carro guinou de lado, estacou, e a porta abriu-se de repente.
O condutor saiu num único movimento limpo, já a correr mal os pés tocaram no cascalho. Altura média, corpo compacto, a mover-se como alguém que já tinha fugido de coisas antes. Atravessou o terreno aberto em direção à fenda escura entre um barracão de chapa ondulada e o talude íngreme da linha férrea.
E então, à entrada da passagem, parou.
Virou a cabeça e olhou para trás, para eles.
Não parecia assustado. Nem apressado. Tirou meio segundo que não tinha direito nenhum a tirar, e nesse meio segundo olhou para os dois rapazes e para as bicicletas deles como quem olha para uma previsão do tempo que já leu. Sem expressão. Imperturbável. Quase um pouco aborrecido, como se os estivesse a arquivar numa categoria com que lidaria mais tarde. Depois entrou na escuridão entre o barracão e o talude, e as sombras fecharam-se sobre ele como água.
O carro ficou ali, com a porta aberta, o motor a estalar baixinho.
Uma coisa fria deslizou pela nuca de Finn, e não tinha nada a ver com o vento que vinha dos carris. Ladrões fugiam. Ladrões entravam em pânico. Ladrões não paravam para decorar a nossa cara como se tivessem todo o tempo do mundo.
Jude derrapou até ali e saltou da bicicleta. — Eu apanho-o!
— Espera. — Finn travou com força ao lado dele, o peito a bater como um tambor. — Jude. Espera.
Mas Jude já tinha dado três passos para dentro da passagem, a semicerrar os olhos para a escuridão. Para lá dela, Finn conseguia ver paletes partidas e lixo e, mais adiante, um emaranhado de agulhas ferroviárias e túneis de manutenção onde nenhum dos dois alguma vez tinha posto os pés.
— Não sabemos o que há lá atrás — disse Finn, agarrando o irmão pelo ombro. — E não gostei nada daquele olhar.
O corpo inteiro de Jude ainda estava pronto a disparar. Durante um segundo, resistiu à mão de Finn. Depois a vontade de lutar saiu-lhe do corpo e ele soltou o ar.
— Está bem — disse ele. — Mas ele vai fugir.
— Não no carro. Neste momento, é isso que interessa.
Foram juntos até ao descapotável. Por puro hábito, Finn obrigou-se a parar e simplesmente olhar antes de tocar em qualquer coisa. Olhar antes de tocar. O pai deles tinha repetido aquilo tantas vezes que agora vivia nas mãos de Finn, não na cabeça. Já nem era uma regra. Era mais como um batimento.
Banco do condutor vazio. Chaves ainda a balançar na ignição. E ali, no chão do lado do passageiro, meio enfiada debaixo do tapete de borracha, estava uma ferramenta fina de metal, com uma pequena roda de carboneto numa ponta e um cabo moldado para encaixar na mão.
Finn agachou-se, mantendo os dedos bem afastados. — Isto é um cortador de vidro. E dos bons. Ninguém anda com isto para roubar um carro.
— Então porque é que está num carro roubado? — disse Jude. Não era bem uma pergunta.
Finn deu a volta até à porta do condutor. Havia qualquer coisa presa no fecho metálico do puxador e, contra a pintura azul, destacava-se como uma luz de aviso. Um único cabelo. Não era castanho, nem louro, nem aquele castanho-avermelhado a que algumas pessoas chamavam ruivo só para serem simpáticas.
Vermelho. Vermelho a sério. O vermelho de um lápis de cera chamado Carro dos Bombeiros.
Jude inclinou-se ao lado dele e olhou. — Está bem. Isto é uma peruca.
— Talvez.
— Finn. Ninguém tem cabelo desta cor naturalmente. Isto é vermelho de loja de disfarces. Ele quer que olhemos para o cabelo, não para a cara dele.
Finn abriu a boca para dizer qualquer coisa prudente sobre não tirarem conclusões precipitadas. Depois lembrou-se da forma como o homem se virara e olhara para eles, calmo como se nada fosse, e voltou a fechá-la. Jude podia ter razão. Jude tinha razão com uma frequência irritante.
Jude ativou a câmara do telemóvel com o polegar e tirou uma fotografia geral e um grande plano do cabelo exatamente onde estava. — O esquivo cabelo vermelho — murmurou, seco e solene, como um homem a narrar um documentário da natureza — apanhado no seu habitat natural. Finn foi buscar dois sacos limpos com fecho ao bolso de primeiros socorros do kit da bicicleta, mas parou. — Não. Deixamo-lo onde está. Encostou as duas bicicletas entre a prova e o vento mais forte, fotografou o corta-vidros de três ângulos e manteve as mãos longe do puxador.
Duas provas. Muito mais do que uma pergunta.
Jude fitava a abertura negra por onde o homem desaparecera. — Ainda podíamos apanhá-lo.
— Ainda podíamos ficar encurralados — disse Finn, já a tirar o telemóvel. — Pode haver mais alguém lá atrás. Prefiro dar um carro à polícia do que apontar para um buraco e dizer-lhes para confiarem em nós.
Fez a chamada. Estrada de acesso de Briar Junction, linha ferroviária costeira, cerca de três quilómetros a leste da estação, procurar a hera no marco da milha. Descapotável roubado, recuperado. Condutor fugiu a pé na direção do talude. Dois miúdos de bicicleta, duas provas ainda no local, nada tocado.
A voz da operadora voltou calma e sincera. — A patrulha está a caminho. Chegam dentro de doze minutos. Não o sigam. Fiquem onde estão.
Finn desligou. — Doze minutos. Consultou o relógio analógico riscado e fixou a hora na cabeça. O telemóvel dele era um pântano de alertas e avisos de bateria fraca. O relógio dava-lhe uma coisa limpa: a hora, e mais nada.
Jude deu um pontapé numa pedra solta, que foi parar às ervas. — Daqui a doze minutos, ele já vai a três quilómetros daqui.
— Ou vai estar sentado num túnel que nem sabemos que existe, a ver-nos esperar. Finn enfiou o telemóvel na mochila. Não gostou da facilidade com que aquela segunda hipótese lhe saíra da boca.
Por isso esperaram. O descapotável estalava enquanto arrefecia. Uma gaivota passou a planar por cima deles, silenciosa, curiosa. Finn apoiou-se no guiador e, como as mãos não tinham nada que fazer, os olhos começaram à procura de uma tarefa.
O trabalho que encontraram era este.
A estrada de acesso terminava ali, em Briar Junction, numa zona de inversão em gravilha irregular. Do outro lado da estrada havia uma velha fiada de lojas encerradas, bem recuada. Do lado da linha férrea, o corredor abria-se para mato rasteiro e vedação de rede, e os dois carris seguiam para o interior, direitos como uma régua desenhada por alguém com ódio a curvas. Não havia casas viradas para os carris. Não havia câmaras de trânsito apontadas à zona de inversão. Nada ali fora além de ferrovia, gravilha e via morta a avançar para uma mancha de neblina matinal.
E lá ao fundo daquela linha de visão absurdamente direita, erguendo-se acima das árvores como uma velha sentinela ferrugenta esquecida no posto, estava a torre de água. Desativada havia anos. Com metade dos degraus da escada desaparecidos. O depósito remendado com primário cinzento nos sítios onde a tinta cedera.
Finn olhou do carro para a torre. Depois voltou a olhar para o carro. Então o cérebro dele finalmente apanhou a comichão que vinha a perseguir desde Harbor Row e disse a coisa em voz alta antes que ele conseguisse impedir-se.
— Porquê aqui?
Jude olhou para ele.
— A estrada principal fica para ali. — Finn apontou para oeste, na direção do zumbido distante da rota costeira. — O ferry fica para ali. Se roubas um carro e queres desaparecer, abandonas o carro perto de outros carros. Ou no terminal, onde ninguém levanta os olhos. — Girou devagar sobre si mesmo, absorvendo os barracões, a gravilha, o nada. — Mas ele lutou connosco até chegar aqui. Porquê?
Jude não respondeu de imediato. Caminhou até ao para-choques dianteiro do descapotável e ficou exatamente no sítio onde o homem estivera antes de fugir. Dali, olhando pelo corredor abaixo, só havia uma coisa para ver.
Os carris apontavam diretamente para a torre. Como uma seta. Como se tivessem sido colocados ali só para isso.
— Ele não estava a fugir do porto — disse Jude, agora em voz baixa, sem a piada habitual no tom, pela primeira vez. — Estava a tentar chegar a alguma coisa. Alguma coisa que sabia que estava aqui.
Finn aproximou-se e ficou ao lado dele, e os dois olharam pela linha silenciosa da ferrovia até à torre escura contra o céu cada vez mais claro, demasiado longe para lá chegar a pé antes que alguém o apanhasse, demasiado fora de mão para ser acaso.
Atrás deles, o descapotável continuava com a porta aberta e as chaves a balançar, vazio exceto pelo fantasma de um homem que lhes deixara uma ferramenta para cortar vidro, um impossível fio de cabelo ruivo e um olhar que Finn já sabia que voltaria a ver quando fechasse os olhos nessa noite.
Algures mais abaixo nos carris, o apito do comboio soou de novo, longo e grave.
E lá ao fundo, no ponto de fuga, a velha torre esperava por aquilo que o homem do cabelo ruivo viera fazer até ali.
Capítulo 2 - O que a polícia fica autorizada a guardar
A esquadra de Port Arbor cheirava a café queimado e àquele produto cor-de-rosa com que lavavam o chão. Finn estava sentado numa cadeira de plástico cor de papa de aveia e olhava para os dois sacos de provas em cima do balcão como um cão a olhar para uma sanduíche que não lhe deixavam comer.
Dentro dos sacos: o corta-vidros e o único cabelo ruivo, cada um exatamente onde o técnico de provas o colocara depois de o recolher do carro. Tudo aquilo que ele e Jude tinham arriscado o pescoço para encontrar naquela manhã.
Vira o técnico selá-los do outro lado do balcão vinte minutos antes. Continuava sem gostar daquilo. E gostava ainda menos do facto de, no instante em que os selos foram colocados, os objetos terem deixado de ser dele para analisar.
Ao lado dele, Jude batia com o calcanhar na perna da cadeira. Depressa. Mais depressa. Depois ao dobro do ritmo, como um solo de bateria que ninguém tinha pedido.
— Para — disse Finn.
— Estou a processar.
— Estás a vibrar.
O chefe Colter saiu de um gabinete lateral, puxando o cinto de serviço para cima como se ele o tivesse desiludido pessoalmente. Era um homem grande e cansado, que claramente estava de pé desde antes do nascer do sol. Atrás dele vinha o detetive Mudge, já com os polegares a mexer num tablet, sem levantar os olhos.
— Contem-me tudo — disse Colter. — Mais uma vez.
E Finn contou. O parque público junto a Stern Wharf. O descapotável de Chase a arrancar sem faróis. As duas malas pretas e achatadas do lado do passageiro, o breve ponto cego atrás do armazém de chapa ondulada, e as malas desaparecidas quando o carro voltou a ficar visível. Depois a perseguição até Briar Junction, onde o condutor abandonou o carro e correu para a escuridão entre o armazém e o talude.
— Altura média — disse Finn. — Compacto. Corria como quem sabe correr. Encontrámos o corta-vidros no espaço dos pés e o cabelo ruivo preso no fecho da porta.
Mudge finalmente levantou os olhos. — Fotografaram-nos antes de alguém lhes tocar?
— Sim. Deixámos ambos no sítio.
— E ficaram com o carro até a patrulha chegar?
— Os doze minutos inteiros.
Mudge apontou aquilo. Apontava tudo. Finn teve a estranha sensação de que, se espirrasse, Mudge registaria o espirro.
Colter pegou no saco com o corta-vidros e virou-o debaixo da luz. Não o abriu. Durante um segundo cheio de esperança, Finn pensou: Ele está a ver. Está a ver que isto é bom de mais, preciso de mais, caro de mais para ser o pé de cabra de um ladrão de carros qualquer.
Depois Colter largou-o num tabuleiro de plástico cinzento e assinou uma etiqueta que uma funcionária lhe passou pelo balcão.
— Propriedade recuperada — disse ele. — Retirada do veículo. Agora fica connosco.
Disse-o com gentileza. Essa foi a pior parte. Não havia nenhuma regra que Finn pudesse contestar, nenhum erro que pudesse apontar. Simplesmente tinha acabado.
— Não foi uma voltinha por diversão — disse Jude, inclinando-se para a frente. — O condutor sabia exatamente para onde ia. Foi direto à linha férrea.
— E é por isso que a patrulha está lá fora neste momento — disse Mudge. Não parecia impressionado. Também não parecia irritado. Soava como uma parede que tivesse aprendido a falar. — O carro vai a caminho do parque de apreensões para recolha de impressões digitais. Temos uma unidade nas estradas de acesso. Vocês os dois fizeram bem. Agora deixem-nos tratar do resto. — Fez estalar a caneta. — E mantenham-se longe do corredor ferroviário.
Finn abriu a boca. Tinha uma explicação inteira pronta sobre a marca no corta-vidros, sobre para que servia realmente uma ferramenta daquelas.
Colter já se estava a afastar.
Não de forma mal-educada. Apenas como quem dava o assunto por encerrado. Nunca tinham fechado uma porta na cara de Finn com tanta educação.
Lá fora, a tarde tornara-se branca e escaldante, com o pavimento a devolver-lhes o brilho aos olhos. Jude arrancou a bicicleta do suporte com tanta força que fez abanar a fila inteira.
— Registaram aquilo como se não fosse nada — disse ele. — Como se fosse um guarda-chuva perdido.
— Registaram aquilo como se lhes pertencesse — disse Finn, destrancando a própria bicicleta. — Porque agora pertence.
— Ainda temos as fotografias.
— Temos. — Finn passou a perna por cima da bicicleta. — Não temos um laboratório. Não temos o corta-vidros de verdade. Temos as fotografias e aquilo de que nos conseguirmos lembrar antes de começar a ficar confuso.
Jude pedalou até ficar ao lado dele quando viraram para Cypress Lane, com os mastros da marina a tilintar à direita. — Então e agora? Vamos para casa ficar sentados?
— Vamos para casa escrever o que vimos. Depressa, antes que se misture tudo. — Finn pôs-se de pé nos pedais para subir a colina junto ao Breakwater Park. — Depois amanhã, à luz do dia, vamos ver as partes de Briar Junction que qualquer pessoa pode ver.
— Desde quando é que tu queres ficar parado enquanto um caso arrefece?
— Desde que ir depressa quase nos meteu num túnel com ele.
Jude fez um som como um pneu a perder ar. Mas não se afastou. Seguiu ao lado de Finn durante todo o caminho, passando pela gelataria que se preparava para a multidão do jantar, passando por uma senhora que passeava junto ao paredão um cão do tamanho de uma forma de pão.
Tudo parecia completamente normal. Era isso que Finn não conseguia tirar da cabeça. Uma ferramenta profissional. Uma fuga ensaiada. Um departamento inteiro de polícia demasiado ocupado num domingo para ver o que ele tinha visto. E a cidade continuava simplesmente a comer gelados, como se o chão não tivesse inclinado um pouco debaixo dos pés de toda a gente.
A casa deles ficava no fim de uma rua sem saída que terminava no sapal, com as telhas de cedro já prateadas pelo vento. A carrinha do pai não estava na entrada. Gavin Mercer fazia inventário, instalava e tratava da manutenção de sistemas eletrónicos de segurança no armazém de material náutico, o que significava que, mesmo a um domingo, podia estar algures com uma prancheta e uma estação de rádio horrível, deixando os rapazes com a casa só para eles.
Não ficaram lá em baixo.
Lá em cima, no quarto que partilhavam, Finn tirou da parede o quadro de cortiça que usavam para os trabalhos da escola e encostou-o ao lado da secretária. Deixou-se cair na cadeira, agarrou numa caneta e no caderno de argolas da prateleira, e começou o primeiro verdadeiro quadro do caso. Jude atirou-se para o beliche de baixo com o telemóvel.
— Lê-me o que tens — disse Finn. — O cabelo.
— Cabelo ruivo. Tipo vermelho de lápis de cera. — Jude semicerrava os olhos para a fotografia e fez uma careta. — O meu grande plano está uma porcaria. Parece uma mancha de tinta vermelha.
— Tinhas a definição macro ligada por causa daquela cena da cigarra.
— Eu estava a tentar não deixar cair o telemóvel numa sarjeta, obrigado. — Mesmo assim, as orelhas de Jude ficaram um pouco cor-de-rosa. — Escreve de memória. Era mesmo vermelho. Não era acobreado. Vermelho falso. Vermelho de peruca.
Finn escreveu. Cabelo vermelho, preso no trinco. Demasiado vermelho. Talvez não seja verdadeiro. Depois, por baixo: Corta-vidros. Abriu a sua própria fotografia, a que tinha ficado mesmo bem, e leu o carimbo na estrutura.
— Kestrel Precision — disse, escrevendo as letras em maiúsculas. — É uma marca real. Isto não é uma ferramenta de loja de ferragens.
Pesquisou no telemóvel com o polegar. O primeiro resultado era uma página de produto. Foi lendo a descrição em voz alta, sem se demorar.
— Vitrinas de alta segurança. Vidro de museu. Montras reforçadas. — Levantou os olhos. — Isto não é para janelas de carros. É para entrar em coisas que as pessoas pagaram para manter fechadas.
Jude endireitou-se. — Então quem roubou o carro sabe cortar vidro de segurança.
— Então o carro não era o trabalho. Era o primeiro passo.
Finn tocou num segundo link, uma discussão num fórum sobre ferramentas de entrada de alta gama. A página carregou a meio e depois mudou para um escudo azul. Acesso Restrito. Utilizador Ligado: F. Mercer. Voltou atrás com o polegar.
— Bloqueado, claro — disse. O pai deles tinha o filtro configurado para bloquear tudo o que cheirasse a arrombar coisas, e ainda fazia queixa enquanto o fazia. Não valia a pena a discussão. O olhar dele foi para a estante por cima da cama. — Espera. Requisitei uma coisa para o trabalho sobre profissões. É um livro. Os livros não fazem queixa.
Estendeu o braço e puxou de lá um calhamaço de capa mole que a biblioteca da escola lhe tinha emprestado, ainda a cheirar à máquina de plastificar. Mid-Atlantic Security and Glass Systems Reference. Folheou até ao índice e passou o dedo pela letra K.
— Kestrel — leu Jude por cima do ombro dele. — Duzentos e vinte e quatro.
Finn abriu na página. Ali estava ela, a mesma ferramenta, as mesmas especificações, mais uma nota de rodapé com que o site nem se tinha preocupado. Leu-a em voz alta. — “Apenas para profissionais de instalação e manutenção. Formação especial necessária para cortar vidro laminado sem o estilhaçar.”
Jude soltou um assobio baixo. — Então quem roubou o carro tem formação. Ou tem um trabalho em que esta ferramenta faz sentido.
— Ou ela. — Finn pensou no cabelo ruivo, agora fechado num saco de provas da polícia, algures do outro lado da cidade, em vez de estar ali onde pudesse olhar para ele. — O cabelo é demasiado ruivo para ser de confiança. Talvez seja uma peruca. Escreve “possível peruca”, com ponto de interrogação. — Fechou o caderno com uma pancada suave. — É isto que sabemos.
Escreveu quatro linhas e prendeu-as no quadro de cortiça. O corta-vidros. O cabelo. Dois estojos planos desaparecidos atrás do barracão. Briar Junction, só de dia, não tocar. Depois tapou a caneta.
— É isto — disse ele. — É o que temos. É pouco.
— Mas é real. — Jude inclinou-se e roubou uma batata frita fria de um prato que estava em cima da secretária desde o almoço. — Então podemos ir? Enquanto ainda há luz?
— Nem pensar. Não no escuro. — Finn olhou para a janela. O céu por cima do pântano ficara liso e escuro, a última luz a escoar-se dele como água por um ralo lento. — Íamos pisar tudo o que a polícia deixou passar. Amanhã. Ao amanhecer.
Jude abriu a boca para discutir.
— Podes preparar as lanternas de cabeça — disse Finn.
Jude fechou a boca. — Está bem. Ao amanhecer. Mas sou eu que preparo as lanternas de cabeça.
— Eu acabei literalmente de dizer isso.
— Estou a reivindicar a ideia como minha.
Finn quase sorriu. Olhou para o relógio, o velho relógio analógico de mostrador riscado que pertencera ao avô deles. Mais tarde do que parecia. Nesta altura do ano era sempre assim.
Jude já ia a meio de enfiar barras de cereais e garrafas de água num saco de viagem, toda a sua cedência à espera transformada em preparar vinte quilos de snacks, quando o telemóvel vibrou em cima do colchão.
Agarrou-o. As sobrancelhas juntaram-se.
— É o Perry — disse ele.
— O que é que ele quer?
Jude leu em voz alta. — “yo porque é que há carros da polícia junto ao estaleiro industrial. luzes de patrulha por todo o lado. vocês estão bem??”
Finn ficou imóvel. — Diz-lhe que é rotina. Roubaram um carro perto do porto, o condutor fugiu para a zona da linha férrea.
Jude escreveu. As bolinhas apareceram quase de imediato.
— “ok. assustei-me. o meu pai passou por aí ontem à noite na entrega da padaria. disse que a estrada da propriedade estava completamente silenciosa. agora consigo ver as luzes dos carros-patrulha da minha janela.”
Jude pousou o telemóvel devagar. Olhou para Finn.
— O Neil Rowan faz manutenção na Wexler Tower House — disse ele. — Algumas estradas da propriedade passam mesmo ao lado do velho corredor ferroviário. Isso fica tipo a três quilómetros de Briar Junction.
— O Perry está assustado pelo pai — disse Finn. — É só isso.
— Eu sei. Mas três quilómetros é estranho. — Jude esfregou a nuca. — O Perry vê luzes de patrulha da janela e acha que aconteceu alguma coisa no estaleiro. Provavelmente não é nada. Provavelmente os polícias estão só a varrer o percurso por onde o tipo fugiu.
— Provavelmente — disse Finn.
Ainda assim, escreveu uma pequena linha no fundo da página. A ida do Neil à padaria passou pelo estaleiro durante a noite. O Perry viu luzes de patrulha na manhã seguinte. E ele não gostou nada do aspeto que aquilo tinha, ali escrito por baixo das outras linhas. Três quilómetros não era assim tão longe. Não quando alguém conduzira de propósito direito à linha férrea.
Jude fechou o fecho do saco de viagem e largou-o junto à porta como se fosse um desafio. O quarto parecia apertado e carregado de eletricidade, como o ar mesmo antes de uma trovoada, cada barra de cereal e cada garrafa dentro daquele saco uma pequena promessa de que a manhã lhes traria alguma coisa.
Então os dois telemóveis tocaram ao mesmo tempo.
Foi um som agudo e feio, o tipo de alerta que significava que a cidade queria a tua atenção naquele preciso instante. Jude agarrou no dele. Finn leu o seu.
BOLETIM DE PORT ARBOR: incidente de segurança na Wexler Tower House em análise. Nenhum furto confirmado. Polícia verifica relatos de um intruso perto da estrada da propriedade.
O coração de Finn acelerou. Abriu o mapa e escreveu Wexler Tower House. O marcador caiu a nordeste da cidade, lá no alto de uma encosta arborizada acima do antigo entroncamento ferroviário. Afastou a imagem. Aproximou-a de novo. Mediu a distância entre dois dedos.
— Finn — disse Jude. Agora em voz baixa. Sem provocação nenhuma.
— Estou a ver.
A Wexler Tower House ficava a pouco menos de três quilómetros de Briar Junction, perto pelas antigas estradas de serviço. Perto o suficiente para que alguém no carro roubado de Chase pudesse vigiar o corredor, passar pelo estaleiro industrial e chegar à entrada traseira da propriedade em poucos minutos. Perto o suficiente para que um corta-vidros feito para vitrinas de museu começasse, de repente e de forma nauseante, a fazer sentido.
— Achas que o carro está ligado a isto — disse Jude. Não era bem uma pergunta.
Finn olhou para o mapa. Para o pequeno marcador na encosta arborizada. Para a linha do corredor ferroviário a afastar-se na direção da torre de água para a qual ambos tinham olhado naquela manhã sem saberem porque era importante.
— Acho que o carro serviu para uma ronda de reconhecimento — disse ele devagar. — Ele largou-o em Briar Junction porque Briar era o objetivo, não a fuga.
— Então roubar o carro não era o trabalho.
— Não. — Finn ficou com a boca seca. — Fazia parte de uma coisa maior. Uma coisa que precisa da linha férrea e de um corta-vidros.
Ficou a olhar para as estradas e as linhas férreas que se enredavam no pequeno ecrã, uma teia que ainda não conseguia decifrar. E algures naquela teia, a três quilómetros de um descapotável abandonado, havia uma propriedade com uma torre e um intruso, e um homem da manutenção chamado Rowan cuja ida à padaria o levara a passar pelo estaleiro industrial durante a noite em que o alarme da propriedade fora violado.
Finn pensou no cabelo ruivo, selado dentro de um saco da polícia onde talvez nunca mais o voltasse a ver.
Lá em baixo, a porta da frente abriu-se com estrondo.
— Rapazes? — chamou o pai deles lá de baixo. Havia uma nota na voz dele que Finn quase nunca ouvia, não em Gavin, que era o homem mais calmo de Port Arbor. — Vocês os dois. Desçam já cá abaixo. Tragam o caderno.
Jude e Finn olharam um para o outro.
Durante um segundo, nenhum dos dois se mexeu.
Depois mexeram-se os dois.
Capítulo 3 - A Torre Antiga
O telefone da cozinha tocou antes de Finn chegar ao último degrau, e o rosto de Gavin Mercer mudou por completo.
Num segundo, o pai estava junto à mesa da cozinha, de camisa de trabalho, à espera de ouvir falar de Briar Junction. No seguinte, endireitou os ombros e a voz desceu meio tom.
— Gavin Mercer. — Fez uma pausa. Depois a caneta dele desceu sobre o canto de um folheto de ferragens, cravando-se no papel. — Wexler Tower House. Quando foi descoberta a intrusão?
O telemóvel de Jude já estava esquecido, virado para baixo, sobre o individual. Ele articulou as palavras para o outro lado da mesa como se fossem uma asneira. Wexler Tower House. A propriedade para lá de Briar Junction. A que tinham mapeado mais cedo nesse dia, depois do carro roubado e do homem que não fugira.
— Posso estar aí dentro de trinta minutos. — Gavin pousou o telefone e olhou para eles, e Finn preparou-se, porque conhecia aquele olhar. Era o olhar que vinha mesmo antes de ficam em casa.
— Nós vamos — disse Jude, já de pé.
— Não vão nada.
— Pai. — Finn secou as mãos devagar, mantendo a voz calma. — Nós vimos o carro, as caixas e para onde ele fugiu. Tu não. Deixa-nos ir.
Gavin observou-os como observava um conjunto de câmaras à procura do ângulo morto. A análise durou um instante a mais. E então, só por uma fração de segundo, qualquer coisa lhe passou por trás dos olhos, algo que Finn não conseguiu identificar bem. Não era irritação. Quase o contrário. Como se tivesse visto o próprio reflexo nos