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Capítulo 1
O Postal Não Pediu Desculpa
O postal passara três dias fechado numa bolsa de plástico para provas, o que Emily Coleman achava uma falta de educação.
Não da bolsa de plástico. Do postal.
A bolsa tinha sido ideia de Quinn Becker, claro. Quinn acreditava que a maioria dos objetos podia melhorar se fosse etiquetada, alisada, selada e guardada num sítio onde ninguém com mãos humanas normais pudesse deixar dedadas. O postal em si é que era a parte mal-educada. Tinha chegado a casa de Quinn sem morada de remetente, com BECKER escrito BECKAR na etiqueta de envio, fizera toda a gente voltar a pensar em fantasmas e depois ficara pousado no balcão da cozinha, recusando-se a dar explicações.
Emily não confiava em papel com ar convencido.
— Não é papelaria assombrada — disse Quinn, ao sair da carrinha de Jo Becker com a bolsa debaixo de um braço.
— Tu não sabes isso — disse Emily. — Se calhar sussurra em letra cursiva quando ninguém está a segurá-lo.
— É um postal do acesso a Granite Creek.
— Papelaria assombrada pode ter localização.
Quinn ajeitou os óculos com a expressão que usava quando estava a decidir se Emily tinha piada ou se era uma ameaça à segurança pública. — O último mistério não envolveu fantasmas de verdade.
— Exato. Envolveu adultos a tomar decisões péssimas e depois a culpar material básico de escritório. — Emily saltou da carrinha e aterrou numa chuva de gravilha do parque de estacionamento. — Que é exatamente aquilo que um fantasma quereria que pensássemos.
Jo Becker fechou a porta do condutor e olhou para as duas por cima do tejadilho da carrinha. — Uma regra antes que qualquer uma de vocês acuse o correio.
O acesso a Granite Creek estendia-se sob um céu luminoso de primavera. O parque de estacionamento era metade gravilha, metade asfalto velho, rachado pela erva. Mais adiante, choupos inclinavam-se sobre um riacho que corria rápido e ruidoso com o degelo, a água fria e veloz por cima das pedras.
Na ponta mais afastada do parque, tendas de lona batiam ao vento sob placas que diziam LABORATÓRIO DA NATUREZA DE GRANITE CREEK e DIA DE ANTEVISÃO DA CONTAGEM DO RIACHO. Voluntários carregavam pranchetas. Miúdos de botas de borracha faziam fila junto a alguidares com kits de teste da água. Um homem de colete fluorescente discutia com uma mesa dobrável e estava a perder.
Parecia quase normal. Emily aprendera a não confiar no quase normal.
— Uma regra — disse Jo. — Nada de surpresas. Fiquem onde o público fica e, se alguma coisa mudar, digam-me antes de mudarem com ela. O riacho está barulhento, o que significa que está cheio, o que significa que está rápido, o que significa que o trilho superior fechado continua a ser um rumor que admiramos à distância. Contornem essa regra e eu faço questão de narrar o vosso verão inteiro às vossas mães.
— É uma regra generosa — disse a Emily. — Só uma proibição inteira.
— Encurtei-a por vocês. — A Jo fechou a porta da carrinha. — Não vou andar atrás de vocês a recitar as partes do riacho onde não se devem afogar. Vocês as duas resolveram um caso a sério no outono passado. Portem-se como pessoas que sabem ler uma placa. — Estendeu a mão. — O postal.
A Quinn entregou-lhe a capa. A Jo estudou outra vez a imagem, embora os três já a soubessem de cor. Na frente via-se um marco do trilho no acesso a Granite Creek, de madeira cinzenta e gasta pelo tempo, com um parafuso metálico de topografia cravado na pedra ao lado. Alguém tinha feito um círculo à volta do parafuso com tinta vermelha. No verso, em letras maiúsculas e direitinhas, a mensagem dizia:
O FANTASMA DEIXOU QUALQUER COISA PARA TRÁS.
Sem assinatura. Sem explicação. Sem um pedido de desculpa por estragar a semana a toda a gente.
— O fantasma de Coyote Peak era falso — disse a Emily. — Talvez este tenha aprendido com os erros dele.
— Não vamos dar nome a este caso antes de ele fazer alguma coisa — disse a Quinn.
— Chamaste à pasta Incidente de Seguimento.
— Isso é arquivar, não é dar nome.
— Isso é linguagem de robô para vamos fazer isto outra vez.
A Jo baixou o postal. — Não vou partir do princípio de que isto está ligado a alguma coisa. Pode ser uma partida, um agradecimento, ou alguém que viu dois miúdos desembrulharem uma confusão pública no outono passado e decidiu que vocês dão uma excelente mão de obra gratuita. — Devolveu a capa à Quinn em vez de ficar com ela, e a Emily reparou nisso. A Jo estava a dar-lhes margem. — Olhem para o marco. Se não for nada, vamos embora. Se for alguma coisa, dizem-me a mim e nós dizemos ao Hale. Primeiro os olhos, depois as mãos. Vão.
A Emily fez continência. A Jo ignorou a continência.
Atravessaram o parque em direção ao quiosque. O vento cheirava a pedra molhada e salgueiro. Granite Creek corria vinte jardas abaixo do trilho, a cintilar prateado por entre as árvores, e uma ponte pedonal de madeira atravessava o canal mais baixo, com as guardas envoltas em bandeiras laranja onde se lia ROTA DE CONTAGEM DO RIACHO.
O lugar parecia diferente de Coyote Peak. Mais suave, ao início. Mais água, menos pó. Mas as colinas subiam a pique para lá do riacho, e a drenagem superior estreitava-se numa dobra escura entre encostas onde a neve ainda se agarrava às sombras.
A Emily contou três placas diferentes a dizer às pessoas para não irem por ali, o que lhe pareceu um convite bastante claro do universo para não irem por ali.
O quiosque de informação tinha um mapa do trilho, um aviso meteorológico, uma caixa de plástico com folhetos do laboratório da natureza e uma placa de metal novinha em folha com um código QR. Debaixo do código, em letras negras, lia-se DIGITALIZE PARA VER O PERCURSO DE ANTEVISÃO GRANITE DASH.
A Quinn parou de repente.
A Emily olhou para o quiosque e depois para a Quinn. — Por favor, diz-me que os teus sentidos cartográficos estão a formigar de uma forma calma e de interior.
— Não há forma calma de os sentidos cartográficos formigarem.
— Isso parece o tipo de coisa que tu saberias.
Quinn ergueu a bolsa do postal ao lado do marcador real. A imagem do postal mostrava o mesmo poste cinzento, o mesmo ângulo do riacho, a mesma vedação rústica de madeira ao fundo. O pino topográfico na fotografia estava cravado numa pedra lisa na base do marcador, baço de idade, com um pequeno triângulo dentro de um círculo gravado. Por baixo, gasto mas legível, lia-se GC-L4.
Emily agachou-se junto da pedra.
Havia ali um pino topográfico.
A desilusão atingiu-a, e Emily quase se sentiu envergonhada por isso. Não porque quisesse perigo. Uma parte dela apenas queria que o postal significasse alguma coisa de imediato.
Então Quinn inspirou. Um som pequeno. Cortante. Como uma página a rasgar-se.
Emily gelou. — O quê?
— Não lhe toques.
— Eu não estou a tocar-lhe. Estou agachada perto dele com intensidade emocional.
Quinn ajoelhou-se ao lado dela, segurando a bolsa com as duas mãos, os olhos a alternarem entre a fotografia e o pino cravado na pedra. — Isto está errado.
Para Emily, o pino parecia perfeitamente normal. Redondo, metálico, mais ou menos do tamanho de uma moeda grande, com uma cruz gravada e sem número de estação, assente num buraco raso perfurado na pedra. Aquilo que as mãos dela repararam antes de a cabeça perceber foi o grão à volta. A pedra em todo o resto estava escura e gasta pelo tempo, mas o pó enfiado na fenda era pálido e de arestas vivas, angular, como se alguém tivesse esmagado gravilha de uma entrada de garagem e a tivesse espalhado ali. A gravilha do riacho era arredondada. Aquilo não era.
— A gravação é diferente — disse Quinn. — O pino do postal tem o triângulo do condado e GC-L4. Este tem uma cruz e não tem número. O ângulo também está errado. Vês o entalhe na borda esquerda? No postal, aponta para a ponte. Este aponta para o parque de estacionamento.
Emily inclinou-se mais para perto sem tocar. — Talvez os pinos topográficos tenham roupas de estação.
— Não.
— Talvez o fantasma esteja a redecorar.
Quinn olhou para ela.
— Também não — disse Emily. Em vez disso, apontou para o grão pálido, com cuidado para manter o dedo a uma mão de distância acima dele. — Mas esta terra não combina com a própria vizinhança. Tudo aqui à volta é arredondado e cinzento. Isto parece que foi entregue.
Quinn ficou muito quieta. — Observar primeiro. Ligar depois. — Mas tirou uma fotografia ao grão na mesma.
— Falem comigo — disse Jo, chegando atrás delas.
Quinn passou-lhe a bolsa e apontou. — O marcador coincide. A vedação coincide. O ângulo do riacho coincide. O pino não. O da fotografia é mais antigo e tem uma gravação diferente. Este é mais recente, mais limpo, foi colocado há pouco tempo e está preso em terra que não vem daqui.
Jo agachou-se, e a expressão passou de mãe paciente para adulta do Centro Histórico. Endireitou os ombros, e a voz ficou calma de uma forma que fez Emily pôr-se mais direita.
— Fotografia antes de alguém mexer seja no que for — disse Jo.
— Um agrimensor autorizado pode recolocar um pino topográfico — disse Jo. — Mas tanto o Laboratório como os serviços topográficos do condado teriam registo disso. Vamos ver se alguém tem.
— O Laboratório da Natureza podia tê-lo trocado? — perguntou Emily.
— Um agrimensor autorizado pode recolocar um pino de estação — disse Jo. — Mas tanto o Laboratório como os serviços topográficos do condado teriam registo disso. Vamos ver se alguém tem.
Na tenda mais próxima, o homem de colete fluorescente tinha desistido da mesa dobrável e estava de joelho no chão, a voltar a atar o atacador da bota de uma criança pequena. Disse qualquer coisa que fez a criança rir, depois levantou-se de repente e bateu no ombro de dois voluntários, chamando-os pelo nome, como se estivesse a dirigir uma pequena orquestra feliz.
Uma mulher de caracóis grisalhos curtos e botas enlameadas circulava entre os voluntários, a responder a três perguntas ao mesmo tempo, cansada e eficiente.
Uma segunda mulher estava junto à faixa dos patrocinadores, a sorrir para dois doadores com coletes de lã polar iguais. Casaco creme, botas limpas, um lenço estampado com pequenas pinhas. Tudo nela dizia este evento está a correr maravilhosamente e, se não estiver, tenho uma frase plastificada pronta.
— Cass Rowan — disse Jo, apontando com a cabeça para a mulher das botas enlameadas. — Diretora do Laboratório da Natureza. A mais polida é Maren Vale, consultora de divulgação. E o homem que está a perder contra mobiliário de escritório é Kip Rourke, que organiza a Granite Dash.
O homem de colete fluorescente ergueu a cabeça como se o nome dele tivesse puxado um fio. Viu Jo, depois as duas raparigas, e o rosto inteiro iluminou-se como se tivesse passado a manhã à espera de que acontecesse exatamente aquilo.
— Jo Becker — chamou ele, atravessando o parque de estacionamento quase a correr. — E trouxe as verdadeiras investigadoras. — Parou diante de Emily e Quinn e estendeu uma mão a cada uma, sério como um treinador. — Coleman e Becker. Li sobre Coyote Peak. Duas miúdas viram aquilo por que uma vila inteira de adultos passou durante um ano sem reparar. É precisamente por isso que adoro este trilho. As crianças reparam. — Abriu um sorriso. — Vocês as duas são exatamente quem eu quero num dia de antevisão. O que encontraram? Porque já têm aquele ar.
Era, pensou Emily, uma coisa muito bonita para se chegar ao pé de alguém e dizer. Sentiu que começava a gostar dele, e viu que Quinn também sentia o mesmo.
Quinn levantou a capa. — Isto mostra o mesmo marcador do trilho com um pino topográfico diferente.
Kip inclinou-se, semicerrando os olhos, genuinamente interessado. — Hum. Estranho. — Virou a capa para a luz. — O antigo condado andou a pôr marcadores por aqui durante décadas. Digo sempre às pessoas que Granite Creek tem mais ferragens históricas do que história. Mas é uma boa descoberta. A maior parte das pessoas passa pelo metal sem sequer reparar.
Não era uma resposta à pergunta sobre se o metal tinha sido trocado, mas Emily respeitou a honestidade.
Maren Vale chegou sem parecer apressada, já com o sorriso no lugar. — Há algum problema?
Emily reparou que o sorriso não desapareceu. Apenas ficou mais pequeno e mais brilhante.
Quinn mostrou-lhe o postal. — O parafuso nesta imagem não corresponde ao que está no chão.
— Granite Creek tem infraestruturas históricas em todas as encostas — disse Maren. A palavra infraestruturas saiu nítida, como se ela tivesse treinado para a tornar aborrecida. — Marcos, desvios de percurso, reparações do condado dos últimos quarenta anos. Pode ser manutenção. Se for, deverá haver um registo de reposição.
— Talvez — disse Quinn.
Emily conhecia aquele tom. Queria dizer que Quinn tinha colocado Talvez num recipiente selado com a etiqueta De Modo Algum.
— Tem o registo de manutenção? — perguntou Quinn. — Se foi reposto, haveria um relatório.
O sorriso de Maren manteve exatamente as mesmas dimensões e não vacilou, o que, de alguma forma, foi mais notório do que se tivesse vacilado. — Teria de verificar o que foi digitalizado — disse ela, sem apontar nada. — O ficheiro público está incompleto. O facto de algo estar em falta nem sempre significa que nunca tenha existido.
Do caminho junto ao riacho, a voz de um rapaz disse: — As pessoas deviam importar-se quando marcos permanentes passam a temporários.
Todos se viraram.
Um miúdo estava parado perto da ponte, segurando uma rede de cabo comprido e uma bandeja de amostras em plástico. Cabelo castanho achatado por um boné, lama nos dois joelhos, e já com ar de quem se arrependia de ter falado.
— Oliver — disse Kip, com delicadeza.
— Oliver Finch — chamou Cass Rowan da tenda, sem levantar os olhos. — Se estás prestes a fazer uma palestra sobre pontos de controlo históricos, faz o favor de te lembrar que, neste momento, estás destacado para os macroinvertebrados.
— Posso importar-me com insetos e metal antigo ao mesmo tempo — disse Oliver.
Emily gostou logo dele. Quinn provavelmente gostou da estrutura da frase.
O sorriso de Maren afinou um milímetro. — Um dos nossos voluntários estudantes. Muito entusiasta.
— Isso quer dizer irritante — disse Oliver, para o chão. — Mas útil, se alguma coisa cair à água.
— Identifico-me — disse Emily.
Quinn voltou-se de novo para o quiosque. — Há um segundo problema.
— Claro que há — disse Emily. — O postal tem amigos.
Quinn apontou para a placa com o código QR. — Isto é novo?
— Programa-piloto — disse Kip, animando-se outra vez. — Digitalizam o código, recebem o percurso de antevisão, as famílias adoram os mapas interativos. Sobretudo os miúdos. Disse-o como se falasse a sério na parte dos miúdos.
— As famílias adoram snacks — disse Emily. — Orientação é uma coisa que os pais fingem adorar porque já estão perdidos.
Quinn digitalizou o código antes que alguém conseguisse impedi-la. O telemóvel abriu um mapa de trilhos. Uma linha azul apareceu no ecrã, fazendo um circuito desde o quiosque, passando pela ponte, ao longo do riacho, e depois subindo em direção à zona de escoamento sombria acima do trilho inferior.
A boca de Quinn apertou-se.
— O quê? — perguntou Emily.
Quinn virou o telemóvel para Jo poder ver. — A app diz que o Ranger Spur Connector está aberto para a antevisão.
Jo olhou para o mapa impresso do quiosque. Emily seguiu-lhe o olhar.
No mapa de papel, o mesmo percurso superior estava riscado com um traço grosso a preto. Um aviso vermelho ao lado dizia:
ZONA DE ESCOAMENTO FECHADA. ACESSO AO PÚBLICO PROIBIDO. PERIGO DE CAUDAL PRIMAVERIL.
Emily olhou do telemóvel para o letreiro e depois para o riacho.
— Isso parece mau — disse ela.
— Não faz parte do nosso percurso — disse Kip, descontraído, dando palmadinhas no ar como se pudesse alisar o ecrã. — A antevisão é só o circuito inferior. Essa app deve estar a puxar uma camada do ano passado. Vou pôr alguém a tratar disso antes da abertura. É por isto que adoro ter olhos atentos num dia de antevisão. — Sorriu às raparigas. — Acabaram de fazer o trabalho da minha equipa por eles.
Oliver deu um passo mais perto. — O Ranger Spur não é dados do ano passado.
A voz de Kip manteve-se calorosa. — Oliver.
— É um trilho antigo — disse Oliver. — Não desapareceu. Só foi retirado da app.
Maren soltou uma gargalhada ligeira para os doadores. — Que é exatamente a razão por que fazemos uma antevisão. Apanhamos os pequenos erros antes de o público os ver.
Quinn olhou para o parafuso demasiado novo, depois para a app demasiado confiante, e por fim para o letreiro impresso que dizia claramente que estava tudo fechado.
— O mapa e o terreno estão a contradizer-se — disse Quinn.
Emily ficou a olhar para a zona de escoamento sombria, onde o vento virava as folhas dos choupos, mostrando-lhes o lado pálido. Algures lá em cima, um trilho que supostamente estava fechado, antigo, desaparecido e aberto ao mesmo tempo esperava atrás de três avisos e de um código QR muito confiante.
Ela deu um passo atrás, afastando-se do percurso, em parte porque a zona de escoamento parecia mesmo perigosa e em parte porque Jo estava a observá-la.
— Para que fique registado — disse Emily —, acho que o terreno está a ganhar.
Jo também já tinha o telemóvel na mão e estava a fotografar o marcador. Kip já encaminhava um voluntário para o quiosque, dizendo qualquer coisa simpática sobre uma atualização de software. Maren conduzia os doadores para a tenda dos petiscos com uma mão que nunca chegava a tocar-lhes nas costas. E Cass Rowan tinha finalmente levantado os olhos da prancheta, observando a zona de escoamento superior com uma expressão que não tinha nada de eficiente.
Quinn agachou-se outra vez e ergueu o telemóvel para o parafuso, enquadrando o cascalho claro e a marca cruzada errada na mesma fotografia, como se pudesse prender a discussão à página e obrigá-la a ficar quieta.
— Duas histórias sobre o mesmo pedaço de chão — disse ela. — Uma delas veio parar aqui de propósito.
Premiu o disparador.
Na mão dela, selado na sua bolsa de plástico, o postal continuou a não pedir desculpa.
Capítulo 2
O Miúdo junto à Água
O marcador na bifurcação de baixo era laranja e novinho em folha, o que foi a primeira coisa de que Emily não gostou nele.
— Está demasiado convencido — disse ela. — Olha para isto. Acha que é um sinal a sério.
Quinn agachou-se à frente dele, já com o caderno impermeável aberto, que era a maneira dela de dizer bom dia. — É um painel de orientação de plástico preso a uma estaca nova. Convencido não é uma medida.
— É, quando já conheceste sinais suficientes. — Emily deu uma volta lenta em redor dele, tal como tinha dado a volta ao parafuso errado no quiosque vinte minutos antes. O parafuso que não batia certo com o postal. O parafuso que fizera Quinn dizer que o mapa e a terra estavam a discutir e depois ficar muito calada. — Mas este está a apontar para algum lado. O parafuso ficou só ali sentado a ser mentiroso. Este tem uma opinião sobre para onde eu devo ir.
— Para cima — disse Quinn. Estava a ler a seta, depois o pequeno cartão plastificado da rota preso por uma abraçadeira por baixo dela, depois o trilho que subia, afastando-se do circuito inferior, e virava na direção das árvores e do som. — Está a apontar para cima. Para a travessia de cima.
O som era o essencial. Tinha estado por baixo de tudo durante toda a manhã, um rumor baixo e constante de qualquer coisa a avançar depressa. Ali, onde o trilho se bifurcava, tornava-se específico: água a trabalhar a pedra, aquela pressa muito própria.
— Está bem, polícia das setas — disse Emily. — A travessia de cima é a que tem a corda amarela e o sinal que diz nem penses. A Cass disse-nos. A que está fechada.
— GRANITE DASH, CIRCUITO DE ANTEVISÃO — leu Quinn no cartão, num tom seco. — Uma seta. Um bonequinho corredor muito entusiasmado. E um número de rota. — Inclinou a cabeça. — Diz que a travessia faz parte da antevisão. Diz para subir.
— A corda diz para não ir.
— A corda e o cartão dizem coisas opostas. — Quinn escreveu isso e sublinhou duas vezes, com força suficiente para deixar marca na página.
Emily pousou a mão espalmada na estaca como se pousa a mão num cavalo em quem não se confia. O plástico estava limpo. Limpo de mais. Sem salpicos de lama, sem pólen, sem nenhuma aranha que já tivesse decidido viver ali. As abraçadeiras eram daquele branco leitoso e vivo das abraçadeiras tiradas do saco nessa semana. Tudo à volta tinha apanhado chuva, neve e sol. Aquilo tinha nascido ontem.
— É novo — disse ela. — Quinn. É novinho em folha e está a apontar para a que está fechada.
— Reparei que era novo — disse Quinn. Mas tinha parado de escrever.
Foi então que ouviram o miúdo.
* * *
Ele subiu o circuito de baixo atrás delas naquela corrida desenfreada de uma pessoa pequena a quem mandaram esperar e que decidiu, com todo o coração, não o fazer. Talvez oito anos. T-shirt verde com um dinossauro. Uma saqueta de sumo numa mão, a fazer barulho como um acordeão minúsculo sempre que ele balançava o braço.
— TYLER — chamou uma voz mais atrás no trilho, a voz paciente e cansada de um adulto a olhar para o telemóvel. — Campeão, fica onde eu te consiga ver.
Tyler não ficou onde podia ser visto. Tyler tinha visto o marcador.
— A corrida! — anunciou ele às árvores, à Emily, ao pequeno ícone excitado do corredor que era o seu novo melhor amigo. — É o trilho da corrida! É só seguir as setas!
— É a pré-visualização — começou Emily —, não é mesmo...
— É só seguir as setas — repetiu Tyler, com a autoridade absoluta de alguém que fizera oito anos há pouco tempo, e seguiu a seta. A seta apontava para cima. Ele subiu.
Durante um instante, não foi nada de especial. Um miúdo pequeno a correr encosta acima na direção de umas árvores. Emily até soltou meia gargalhada, por causa do chiado do pacote de sumo, por causa dos ténis dele serem de dois verdes diferentes. Então Quinn disse uma palavra, curta e rápida, e a palavra foi “Emily”, e Emily virou-se para onde Quinn estava a olhar: para lá de Tyler, mais acima no trilho, onde este fazia uma crista e descia na direção do som.
Ela tinha visto aquilo a partir da bifurcação sem realmente o ver. Agora via. O trilho não acabava nas árvores. Passava por cima da beira e descia até à travessia superior, e a travessia superior era uma inclinação de rocha cinzenta e molhada, com o ribeiro a empurrar-se por cima dela, branco nas margens, castanho e forte ao meio, muito acima das pedras onde uma pessoa devia pôr os pés, essas pedras desaparecidas, apenas uma sugestão de pedras sob a água rápida. E, do outro lado, a margem tinha cedido, uma derrocada castanha e molhada, crua, como se a encosta tivesse sido descascada. A corda amarela que devia fechar a travessia estava caída na lama. Uma ponta continuava presa ao poste. A outra terminava num corte limpo e pálido, em vez de num desgaste esfiapado pelo tempo.
— Ele vai atravessar — disse Quinn. — Acha que as pedras ainda estão lá.
Emily já se tinha posto em movimento.
Não decidiu fazê-lo. Havia a encosta, havia as costas verdes de Tyler e havia a borda branca da água, e as pernas dela atravessaram a distância antes de o resto do corpo a acompanhar, o cascalho a derrapar debaixo dos ténis, uma mão estendida para se equilibrar no ar.
— TYLER. PARA.
Ele não parou. Miúdos de oito anos a correr a corrida não param por causa de um grito. Chegou ao cimo da subida e o pé dele pousou na primeira pedra escorregadia, aquela que a seta lhe prometera, e a pedra já não era uma pedra, era uma rampa molhada com um ribeiro por cima, e os braços dele abriram-se, o pacote de sumo voou, e ele soltou aquele som pequeno e surpreendido de uma criança que descobre que o mundo se mexeu debaixo dela.
Emily chegou lá com o corpo todo. Alcançou a elevação e a mão fechou-se na t-shirt de dinossauro, num punhado de verde e ombro, e puxou para trás e para cima. Mas os próprios pés encontraram a rocha molhada no pior momento possível e fugiram-lhe debaixo do corpo, de modo que iam os dois, a deslizar para a água barulhenta, o peso de Tyler, o peso dela e a gravidade todos a votar no mesmo sentido.
Então houve um segundo punho nas costas do casaco de Emily.
Quinn. As duas mãos. As botas fincadas na gravilha seca acima da linha escorregadia, o corpo inteiro, cuidadoso, inclinado para trás como uma âncora. Não gritou. Fez um som por entre os dentes que era quase todo esforço, e não largou, e os três caíram num monte do lado seguro da linha molhada, na terra, a respirar.
O pacote de sumo foi parar ao ribeiro. Bojou uma vez à tona, e a água castanha dobrou-se sobre ele e engoliu-o. Desapareceu mais depressa do que parecia justo, levado pela corrente, para jusante, para a espuma branca, para longe.
Durante um segundo, ninguém falou. Ficaram todos a olhar para o sítio onde o pacote de sumo estivera.
— Era meu — disse Tyler, numa voz muito pequenina, que deixara de ter oito anos e voltara a ter uns cinco.
* * *
A adulta dele chegou a correr, o telemóvel esquecido, o ar de paciência cansada substituído por aquela pressa de rosto branco. Agarrou Tyler pelos dois braços e começou a apalpá-lo à procura de ferimentos, enquanto a boca repetia estás bem estás bem sem parar, como se fosse uma definição automática. Tyler, a salvo, começou logo a chorar por causa do pacote de sumo, o que Emily compreendeu perfeitamente. Chora-se por causa do pacote de sumo porque o pacote de sumo tem um tamanho que se consegue segurar.
Emily ficou sentada na terra. As mãos tremiam-lhe. Virou-as, como se pertencessem a outra pessoa, alguém que fora muito corajoso ou muito estúpido, sendo as duas coisas difíceis de distinguir vistas por dentro.
Quinn sentou-se ao lado dela, sem tocar no caderno. As mãos de Quinn também tremiam, e ela olhou para elas com uma traição científica estampada no rosto, como se o próprio corpo tivesse apresentado um resultado que ela não aprovara.
— Ficaste parada — disse Emily. A voz saiu-lhe errada, demasiado aguda. — Eu caí e tu ficaste parada e agarraste-me.
— Encontrei a rocha seca — disse Quinn. Engoliu em seco. — Depois encontrei-te a ti. Alguém tinha de ser a parte que não caía lá para dentro.
— As minhas pernas foram-se — disse Emily, tentando que soasse a piada sobre as pernas dela terem opiniões próprias, mas não saiu como piada. Saiu tremido. Tentou outra vez e continuou a não ser piada.
Foi então que Kip apareceu no alto da subida.
* * *
Ele veio de cima, do trilho superior, coisa que Emily notou e depois deixou de notar, tal era o alívio de ver um adulto que sabia o que estava a fazer. Kip Rourke movia-se como se a floresta fosse a sala de estar dele. Passada larga e tranquila, o casaco da corrida cor de cone de trânsito, um rádio preso ao ombro com um 1 branco na bateria. O rádio soltou um chilreio suave enquanto ele se aproximava, e Kip calou-o com o polegar sem sequer olhar.
— Ei, ei, ei — disse ele, e tinha o rosto inteiro cheio de alívio, daquele alívio aberto e quente que fazia uma pessoa sentir que tinha sido encontrada. — Ouvi um grito. Toda a gente no chão, mas a respirar. É o meu tipo preferido de acidente. Agachou-se junto de Tyler e do adulto dele, à altura do miúdo, descontraído. — Estás bem, campeão? Pregaste um susto a esta floresta?
Tyler soluçou que tinha perdido o sumo.
— Vamos arranjar-te outro sumo — disse Kip, com a gravidade de um homem a fazer uma promessa a sério — e um autocolante. Temos dos bons. E Tyler, contra todas as probabilidades, soltou uma risada molhada, porque Kip conseguia encontrar a frase exata que transformava um miúdo a chorar outra vez num miúdo.
Ele levantou-se e observou a travessia, a água castanha a correr por cima da rocha cinzenta e escorregadia, a margem que tinha cedido, e o rosto ficou imóvel e carregado. — Pois — disse, em voz baixa. — Pois, isto não dá. Agora não dá mesmo, de maneira nenhuma. Olhou para as raparigas. — Vocês as duas puxaram-no?
— A Emily apanhou-o — disse Quinn. — Eu apanhei a Emily.
— Ela está a minimizar — disse Emily. — Ela é a razão por que eu não sou agora um pacote de sumo.
Kip olhou para elas, e aquele olhar era quente e mais do que quente, qualquer coisa que acertou em cheio no centro macio de uma miúda que queria sentir que importava. — Sabem o que vocês as duas são? — disse ele. — São as verdadeiras investigadoras. Estou sempre a dizer isso às pessoas. Abanou a cabeça, quase a rir. — A cidade teve sorte por vocês estarem aqui.
E depois virou-se e, no mesmo movimento fácil, como se fosse a arrumação mais natural do mundo, aproximou-se do marcador errado.
Não fez disso caso nenhum. Baixou-se, tirou o painel cor de laranja da estaca, o painel novo com o pequeno corredor entusiasmado, e virou-o de modo que a seta que apontava para cima, na direção da travessia fechada, passasse a apontar para baixo, de volta ao circuito inferior e às árvores seguras. Dois segundos. Um adulto a pôr tudo em ordem. Até disse, meio para si mesmo: — Alguém pendurou isto ao contrário, vejam só — e estalou a língua, simpático, como se estivesse a falar de um quadro pendurado torto.
Emily ficou a observar-lhe as mãos, porque a cabeça dela estava demasiado trémula para fazer outra coisa. As mãos dele não se atrapalharam como acontece quando alguém mexe numa coisa em que nunca tocou. Foram direitas ao painel como se o conhecessem.
Ao contrário, pensou ela. Ele disse ao contrário. Como se ninguém tivesse escolhido para onde aquilo apontava.
Mas não disse nada, porque Cass vinha a chegar.
* * *
Cass Rowan apareceu pelo circuito inferior naquele passo rápido mas cauteloso de um adulto que recebeu uma chamada pelo rádio, contou até um e só depois começou a correr, e quando viu a passagem, viu Tyler e viu a corda estendida na lama, ficou com uma cor que Emily não gostou nada de ver.
— Fora desta bifurcação — disse Cass. — Toda a gente. Agora. Desçam para o parque. — Não soou má. Só não havia ar na voz para mais nada além das palavras. — A antevisão do Laboratório da Natureza acabou. Vou fechar esta zona e apresentar um pedido de paragem de emergência para o percurso da corrida. Ninguém se aproxima da passagem de cima até eu mandar ler o medidor e avaliar aquela margem.
— Cass, já está resolvido — disse Kip, descontraído, apontando para a seta que acabara de virar. — Sinal mal colocado, alguém o pôs ao contrário, eu corrigi. Está tudo bem.
— Não está tudo bem — disse Cass. — Está tudo em pausa. — As palavras saíram secas e certeiras. Cass olhou para as raparigas. — Vocês as duas magoaram-se?
Cass levantou a corda solta pela ponta que não tinha sido cortada. A extremidade seccionada estava lisa e clara. — Isto foi cortado. — Fotografou-a, enfiou a ponta solta num saco de amostras limpo e entregou-o a uma voluntária com instruções para o trancar no armário do Laboratório.
— A passagem não é segura — disse Quinn, antes que Cass tivesse de perguntar outra vez.
— Então obrigada — disse Cass, e quis dizê-lo mesmo, do fundo do coração, e esse foi o discurso inteiro, porque já se estava a virar para lidar com o riacho, a margem e a corda. Sem sermão. Sem um em que é que estavam a pensar. Apenas obrigada, uma pausa, e uma adulta a avançar para o perigo em vez de ficar parada em cima dele.
Desceram todos, naquela pequena procissão, com Tyler agora ao colo, encostado à anca do adulto dele, a observar a mata como se ela ainda pudesse querer roubar-lhe o sumo. Kip caminhava ao lado, a distribuir simpatia por toda a gente, uma mão num ombro, uma piada que arrancou uma gargalhada cansada, o rádio a chiar mais uma vez e ele a calá-lo de novo. Quando chegaram ao parque, já tinha quase dois terços do grupo quase a sorrir.
Emily e Quinn deixaram-se ficar para trás, onde as conversas aconteciam.
— Ele virou a seta — disse Emily, em voz baixa.
— Ele corrigiu a seta — disse Quinn. — Palavras dele. Corrigiu-a.
— Disse que alguém a tinha pendurado ao contrário. — Emily manteve a voz baixa, por baixo do estalar do cascalho sob os sapatos de toda a gente. — Quinn, não estava ao contrário, era nova. Nós as duas vimos. O resto daquele trilho levou chuva desde o tempo dos dinossauros e aquela placa saiu do saco ontem. Ninguém a pendurou ao contrário. Alguém pôs uma seta novinha numa estaca novinha e apontou-a para o único sítio onde uma pessoa se podia afogar.
Quinn deu três passos sem responder, a decidir o que era uma observação e o que era uma prova, recusando-se a deixar Emily misturar as duas coisas.
— Seta nova. Apontada para cima. Tyler seguiu-a. — Quinn respirou uma vez. — Posso escrever isso sem pôr já um nome ao lado.
— Ele foi ter com ela como se já a conhecesse.
— Muita gente tem jeito com as mãos.
— Estás a ser justa de propósito — disse Emily.
— Uma de nós tem de ser a parte que não cai lá dentro — disse Quinn. Tocou no caderno, cuja capa estava escura da humidade do ribeiro, mas não o abriu. — Vou escrever o que aconteceu e deixar o nome em branco até termos um.
— Comparado, não ligado — disse Emily.
Mais à frente, Kip estava agachado junto à geleira do recinto, a pescar uma bolsa de sumo e a apresentá-la a Tyler como um cavaleiro que devolve uma espada. Tyler pegou nela com as duas mãos. O recinto inteiro soltou o ar. Alguém até bateu palmas, baixinho, um dos pais, aquele tipo de aplauso que na verdade é só alívio a escapar cá para fora. Kip fez um gesto a desvalorizar, modesto, e durante um segundo até Emily teve vontade de bater palmas também, porque pronto, o miúdo tinha o sumo, o marcador apontava para um sítio seguro, o adulto de quem toda a gente gostava tinha resolvido tudo.
Depois voltou a virar as mãos. Já tinham quase parado. Quase.
Pensou na orla branca da água e no sítio onde a primeira bolsa de sumo tinha desaparecido por baixo, depressa, engolida, sumida antes que alguém conseguisse alcançá-la. Pensou que aquilo podia ter sido do tamanho de uma camisola verde com um dinossauro. Pensou no painel, limpo, novo e confiante, com o seu pequeno corredor entusiasmado a dizer sobe, sobe, é por aqui para a corrida.
— Quinn. — Emily parou na beira do recinto, onde o cascalho encontrava a relva, e Quinn parou com ela. — Esta manhã, um parafuso errado era um enigma. Podemos passar o dia inteiro com um enigma.
— E hoje?
Emily observou Tyler a beber o sumo ao sol, com as duas mãos, como se aquilo pudesse fugir-lhe.
— Aquele marcador — disse ela — tentou afogar um aluno do terceiro ano.
Quinn não a corrigiu para segundo ou quarto ano, não procurou um facto que tornasse aquilo mais pequeno. Limitou-se a fechar o caderno e a pousar a mão espalmada sobre ele, da mesma forma que Emily punha a mão em coisas em que não confiava.
— Está bem — disse Quinn, em voz baixa. — Então não é um enigma.
O ribeiro continuava a correr depressa para algum lado, atrás delas, por baixo de tudo, e agora tinha um som que ambas conheciam.
Capítulo 3
Culpa o Miúdo Calado
A tenda do Laboratório da Natureza cheirava a lona molhada e café velho, e o sinal laranja da bifurcação que mandara Tyler subir a encosta estava encostado a uma arca térmica, com lama a secar na ponta da estaca. Emily trouxera-o cá para baixo ela