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Capítulo 1 - A Casa Que Queria Ser Assombrada
O vento vindo de Breakwater Bay trazia sal e o cheiro da chuva que ainda não tinha caído. Finn Mercer pôs-se de pé nos pedais e deixou a descida levá-lo para lá da última fila de casas de praia, enquanto via a estrada curvar bruscamente na direção das falésias.
Chase Morgan passou por ele a abrir, com o capacete torto e a mochila a saltar-lhe nas costas como se estivesse a tentar fugir.
— O último a chegar ao miradouro paga os refrigerantes! — gritou Chase por cima do ombro.
— Foste tu que pagaste da última vez — gritou Jude Mercer, já a aproximar-se do irmão. — E ainda deves as batatas ao Biff.
Biff Harper mantinha um ritmo constante atrás deles, largo de ombros e perfeitamente tranquilo. — Não quero batatas. Quero dinheiro a sério.
Jeremy Gilroy pedalava ao lado dele, calado, com os olhos nas nuvens escuras que se amontoavam sobre a água. — A tempestade está uma hora à frente da aplicação — disse. — Talvez menos.
Finn verificou o telemóvel. Uma barra. Nada de dados a sério, o que significava nada de radar, o que significava que os olhos do Jeremy eram a única previsão que tinham, e os olhos do Jeremy costumavam acertar. Guardou o telemóvel e baixou a mão sem pensar, os dedos a encontrarem a pequena chave inglesa achatada que o pai lhe entregara junto ao atrelado do barco, a mesma que o avô dera primeiro ao pai. A sua própria pedra da sorte, com cabeça de parafuso. Finn gostava simplesmente de saber que ela estava ali. Deu um puxãozinho à correia, para a apertar, e continuou a pedalar.
Os cinco andavam juntos de bicicleta desde o sexto ano, unidos pelas mesmas ruas e pelo facto de ninguém ter arranjado uma ideia melhor. Tinham todos catorze anos agora, com o nono ano a três semanas de distância. Finn fazia planos. Jude fazia coisas. Chase narrava tudo, em alto e bom som. Biff carregava coisas e dizia a única frase verdadeira no fim. Jeremy reparava em tudo e mencionava talvez um décimo.
Reagruparam-se no miradouro, uma berma de gravilha onde a estrada passava mais perto da falésia. A baía estendia-se lá em baixo, agitada e cor de ferro, com as primeiras cristas brancas a erguerem-se à medida que o vento ganhava força.
— Então — disse Chase, mexendo no telemóvel com o polegar. — Viram as publicações novas sobre a casa da falésia?
— Não — disse Finn —, porque tenho trabalhos de casa e uma vida.
— Mentiroso. Tens trabalhos de casa e um emprego a esfregar cracas na marina. — Chase ergueu o ecrã. Um vídeo tremido: uma casa alta e escura no topo de uma arriba, com uma janela no andar de cima a piscar com uma luz pálida. A legenda dizia Casa na falésia. 2 da manhã. Ninguém vive lá. Expliquem.
Jude inclinou-se para ver melhor. — Quando?
— Há três noites. Alguém da escola secundária publicou isto. Quatro mil visualizações antes de desaparecer.
— Desaparecer como? — perguntou Biff.
— Sei lá. Foi retirado.
— Por quem?
— Por advogados fantasmas, Biff. Sei lá.
Finn espreitou por cima do ombro de Chase enquanto o vídeo recomeçava. A luz na janela incomodava-o. Não era o feixe de uma lanterna; era demasiado quente e instável para isso. Parecia mais um lampião, ou uma lâmpada a falhar por causa de um fio em mau estado.
— O velho Sr. Castell morreu há dois anos — disse Jeremy. — Ninguém se mudou para lá. A herança está presa no processo de inventário.
— Ou qualquer coisa — disse Chase, sombrio.
— É exatamente isso — disse Jeremy. — Inventário não tem nada de misterioso. É papelada.
Jude endireitou-se. Já estava a sorrir, e o problema era precisamente o sorriso. — Devíamos ir ver.
— Não — disse Biff.
— É sábado. Temos a tarde toda.
— É propriedade privada, e está quase a cair-nos uma carga de água em cima.
— Ele tem razão quanto à chuva — disse Jeremy, sem desviar os olhos das nuvens.
— Só uma espreitadela — disse Jude. — Do lado de fora. Já lhe chamei Mansão Fantasma. Agora não podemos não ir.
Finn estudou o irmão. Jude tinha aquela cara. A que queria dizer que já tinha decidido há uns dez minutos e só estava a ser educado ao fingir que aquilo era uma votação. Era a mesma cara que fizera no outono passado, antes do armazém junto à estação de mercadorias, a aventura que acabara com o pai deles a desvendar um caso a sério e os dois de castigo durante uma semana que parecera um ano.
— Está bem — disse Finn. — Ficamos juntos, não passamos do átrio de entrada e, se alguma coisa parecer real, vamos embora.
— Combinado — disse Jude, depressa demais.
Chase levantou uma mão. — Eu alinho. Obviamente.
Biff e Jeremy trocaram um olhar. Biff soltou um longo suspiro pelo nariz. — Está bem. Mas vou ficar com o dedo no botão de chamada.
— Vais ligar a quem? — perguntou Chase. — Aos Caça-Fantasmas?
— À tua mãe. Assusta-me mais do que qualquer fantasma.
Continuaram a pedalar. O vento tornara-se agora uma coisa que empurrava de volta, e a temperatura descia um grau a cada cem metros. A estrada estreitou-se até ficar reduzida a uma única faixa rachada entre pinheiros-bravos rasteiros e erva-das-dunas. As casas de férias foram ficando mais raras, depois desapareceram por completo, até não haver nada além da falésia e do mar frio a roê-la.
A casa surgiu por trás da curva aos bocados. Primeiro, a linha do telhado, negra contra o céu. Depois, as janelas superiores, vazias e com portadas fechadas. Depois, tudo de uma vez: alta e estreita, plantada no topo da arriba, ligada à estrada por uma longa entrada que em tempos fora de gravilha e agora era lama e ervas daninhas.
Pararam no limite da propriedade, onde uma corrente enferrujada pendia entre dois postes. Mesmo do lado de fora da corrente havia um barracão junto à estrada, com a porta aberta, presa por uma dobradiça morta; lá dentro estava escuro e cheirava a mofo e gasolina velha.
— As bicicletas ficam aqui — disse Finn. — É melhor do que deixá-las na estrada.
Levaram as bicicletas para dentro e encostaram-nas à parede do fundo, com os guiadores virados para conseguirem caber as cinco. Finn verificou a fivela do rolo de ferramentas preso por baixo do selim. Os outros fizeram o mesmo. O rolo do Biff era o mais cheio, um embrulho pesado de lona com todas as chaves e ferramentas que ele alguma vez comprara ou pedira emprestadas. O do Jeremy era o mais pequeno, apenas as quatro coisas que arranjavam as quatro coisas que costumavam avariar.
Finn endireitou as bicicletas numa fila arrumada por puro hábito, depois fechou a mão uma vez em torno da pequena chave inglesa que levava na bolsa do quadro, sentiu-lhe o frio, e largou-a. Foi o primeiro a sair.
Vista de perto, a casa era ainda pior do que a estrada prometera. A tinta descascava do revestimento em longas tiras enroladas, deixando à vista a madeira cinzenta por baixo. As portadas pendiam tortas, presas por uma só dobradiça. O alpendre abatia ao centro como um colchão cansado.
Mas Finn já estava a reparar nas coisas erradas.
— Marcas de pneus — disse ele, apontando para a lama ao lado da casa. — Recentes.
Jeremy agachou-se. — Piso fundo. Uma carrinha, ou um SUV grande. E carregado. Vejam como afundou.
— E aquela janela. — Jude indicou com o queixo uma moldura no rés do chão, do lado nascente. — Tábua nova. A madeira está clara. Tudo o resto aqui fora está cinzento do tempo.
Chase estremeceu, e não foi por causa do vento. — Talvez alguém esteja a arranjar a casa.
— Uma casa que está vazia há dois anos — disse Biff — e a única coisa que arranjaram foi uma janela que ninguém consegue ver da estrada.
— Talvez os herdeiros tenham contratado alguém — tentou Chase.
— Talvez — disse Finn. Não acreditava nisso. As marcas eram demasiado recentes e demasiado fundas, e havia dois conjuntos, um a entrar e outro a sair, mais do que uma vez.
Contornaram a casa até uma porta lateral, um painel simples de madeira que estava aberto à largura de uma mão, preso num trinco partido.
— Dissemos que ficávamos cá fora — lembrou-lhes Biff.
— Só uns passos — disse Jude, já a avançar. — Só o hall da entrada. Podem contá-los.
Finn foi à frente, empurrando a porta com o pé. Ela abriu-se para dentro com um ranger seco, dando para um corredor estreito que atravessava a casa de uma ponta à outra. O pó cobria o chão numa camada macia e uniforme, e, assim que Finn o viu, parou, porque o pó não estava uniforme. Havia um caminho limpo a direito pelo meio, alisado pelo passar de pés.
— Olhem — disse ele baixinho.
Amontoaram-se atrás dele. Chase tossiu. Biff disse uma palavra que lhe teria valido ficar de castigo em casa.
As pegadas no caminho limpo eram grandes e de sola funda. Botas de trabalho. Alguém com um tamanho quarenta e seis, a entrar pela porta lateral e a virar à esquerda para o que fora uma sala de jantar, vezes sem conta, até o pó desistir.
— Alguém tem vindo aqui muitas vezes — sussurrou Jeremy.
Finn avançou pelo corredor, seguindo o trilho gasto para não deixar pegadas suas. O ar cheirava a papel velho e estuque e, por baixo disso, a qualquer coisa acre. Tinta. Ou solvente. Parou à entrada da sala de jantar.
A divisão estava vazia, à exceção de uma mesa dobrável encostada à parede. Em cima dela havia uma lanterna a pilhas, uma corda enrolada e um martelo. A corda era nova, com as fibras rijas e claras. O cabo do martelo estava gasto, liso como vidro.
— Essa corda foi comprada esta semana — disse Jude, por cima do ombro.
— Temos de sair daqui — disse Biff. — Isto não é um fantasma. É uma armadilha montada por alguém, e nós estamos mesmo no meio dela.
— Uma obra para fazer o quê? — perguntou Chase.
Ninguém tinha resposta.
Recuaram até ao átrio de entrada. A casa rangeu e assentou com o vento. A chuva começou a bater nas janelas, primeiro uns toques soltos, depois um tamborilar, depois um silvo constante, e a luz no corredor escoou-se à medida que as nuvens engrossavam.
— Pronto — disse Finn. — Acabou. Vamos embora.
Viraram-se para a porta.
O grito veio diretamente de cima deles. Alto, cru e humano, cada vez mais agudo, até se cortar de repente, como se uma mão tivesse tapado uma boca.
Chase gritou. Biff agarrou Jeremy pelo colarinho.
— O que foi aquilo? — perguntou Jude, a olhar para cima.
— É uma pessoa — disse Finn, com o coração a bater descontrolado, mas a ideia assentou fria e clara por cima do medo. As pessoas não gritam assim mesmo no momento certo.
O teto da sala da frente, mesmo por cima do sítio onde eles tinham estado um segundo antes, cedeu com um estalo como um trovão a partir uma tábua. Estuque, fasquias e dois anos de pó caíram numa avalanche cinzenta e sufocante, e uma viga veio abaixo pelo meio de tudo aquilo, grossa e pesada, rachando as tábuas do chão ao embater.
— Para fora! — gritou Finn. — Vá, vá!
Eles correram. Biff empurrou Jeremy à sua frente pela porta lateral. Chase tropeçou e Jude agarrou-lhe o cotovelo, puxando-o para cima sem abrandar. Finn foi o último, e parou por um segundo, porque a viga tinha caído exatamente no sítio onde cinco miúdos tinham estado, e as vigas não fazem pontaria.
Mesmo na penumbra, conseguiu ver o corte recente da serra, quase até ao fim. Uma ripa de madeira lascada estava caída ao lado da viga, e um fio de pesca transparente chicoteava através de um pequeno olhal aparafusado na trave acima antes de desaparecer pelo buraco. A viga não tinha cedido com o peso deles. Alguém esperara até o grito juntar os cinco rapazes por baixo dela e depois arrancara o suporte temporário.
Então a tempestade chegou a sério. Um trovão rebentou por cima deles, a chuva veio de lado, e o vento uivou pelas portadas partidas quase como a voz tinha feito. Finn virou-se e correu para o meio dela.
Pararam no caminho de acesso, a uns vinte metros de distância, encharcados e a tremer. Chase dobrou-se sobre os joelhos, a respirar em golfadas irregulares. Biff já passava as mãos pelos braços de Jeremy, a verificar tudo, depressa e sem delicadeza. Jude esfregou o reboco da cara e deixou manchas esbranquiçadas nas faces, como pintura de guerra.
— Está tudo bem com toda a gente? — perguntou Finn.
— Esfolei o joelho — conseguiu dizer Chase. — Só isso.
— Jeremy?
— Estou bem. O Biff tirou-me de lá antes de aquilo cair.
— Aquele teto não caiu simplesmente — disse Biff. — Digam-me que aquilo não aconteceu sozinho.
— A viga estava serrada quase até ao fim — disse Finn. — Alguém amarrou uma corda ao último apoio e puxou quando o guincho nos pôs por baixo dela.
Jude virou-se para ele, com a chuva a escorrer-lhe do queixo. — Estás a dizer-me que alguém tentou deixar cair uma casa em cima de nós.
— Alguém montou uma armadilha. E nós fomos direitinhos para ela.
A chuva caía fria e constante, martelando tudo à volta. Os casacos deles pesavam, encharcados. Atrás deles, a casa voltara a ficar escura e silenciosa, com o buraco no teto invisível do lado de fora, como se tivesse engolido tudo e regressado à farsa.
— Temos de ir para casa — disse Jeremy. — Isto vai ficar feio.
— Bicicletas — disse Finn. — Vamos.
Voltaram para o barracão de cabeça baixa. Finn empurrou a porta com o ombro e meteu a mão por baixo do selim à procura do rolo de ferramentas.
Os dedos fecharam-se numa fivela vazia. Verificou a bicicleta seguinte, depois a outra. As cinco bicicletas estavam encostadas onde as tinham deixado, intocadas, mas todos os rolos de ferramentas tinham desaparecido. Cada fivela fora aberta com cuidado; nenhuma correia tinha sido cortada ou rasgada.
— As nossas ferramentas — disse Jude, sem emoção.
Biff verificou a fivela vazia por baixo do selim, depois voltou a verificá-la, como se o rolo de lona pudesse reaparecer se ele tivesse paciência suficiente. — Estava preso mesmo ali. Eu próprio confirmei.
— O meu estava debaixo do assento — disse Jeremy, tocando na correia solta.
A mão de Finn foi sozinha até à bolsa do quadro. Os dedos encontraram a pequena chave inglesa, ainda presa onde estava sempre, a salvo porque nunca se afastara dele. Virou-a uma vez, com o polegar na superfície lisa e plana, a pensar, e deixou-a ficar.
— Alguém os levou enquanto estávamos lá dentro — disse Jude. — Enquanto o teto caía e nós corríamos para a porta.
— Isto foi cronometrado — disse Chase. A voz ainda lhe tremia, mas as engrenagens já voltavam a rodar, e quando as engrenagens de Chase rodavam, ele narrava-as. — Alguém esperou até estarmos todos a olhar para o lado errado. Isto não foi um guaxinim rancoroso.
— O guincho pôs-nos debaixo da viga — disse Finn. — Enquanto olhávamos para cima, alguém agarrou nas ferramentas.
— Então porquê as ferramentas? — perguntou Biff. — Porque não as bicicletas? As bicicletas valem mais.
O Biff tinha razão, e foi isso que fez a nuca do Finn gelar.
— As bicicletas levam-nos para casa — disse Jeremy, em voz baixa. — As ferramentas tornam mais difícil voltarmos preparados.
Ficaram parados no barracão, com a chuva a tamborilar no telhado, a olhar uns para os outros, e Finn sentiu o grupo começar a desfazer-se nas suas mãos.
— Eu fico por aqui — disse Chase. — Adoro-vos, malta, mas fico por aqui. Foi perto demais.
— Eu também — disse Biff. — Vou contigo para casa. Não volto aqui sem um adulto e, provavelmente, sem um agente da polícia.
Jeremy hesitou, depois assentiu. — Eu ajudo a perceber o que se está a passar. Mas o Biff tem razão. Contamos a um adulto.
Jude olhou para Finn. Finn olhou para Jude. Nenhum dos dois disse uma palavra, e nenhum precisava de o fazer, porque ambos já sabiam que os dois iam voltar e os outros três não, e essa conversa ficava para depois.
— Contamos ao pai — disse Finn em voz alta. — Ele tem de ouvir isto já.
— O teu pai vai dar cabo de nós — disse Chase.
— O meu pai vai ouvir. Ele descobriu aquilo do armazém no outono passado. Vai saber o que isto é.
— Isto não é um armazém — disse Biff. — Alguém fez cair um teto em cima de cinco miúdos e levou o nosso equipamento enquanto fugíamos. Isto é a sério.
— É por isso que lhe contamos.
Levaram as bicicletas para fora e montaram-nas debaixo daquele dilúvio. A chuva picava o rosto de Finn e o vento empurrava-o como uma mão contra o peito. Manteve uma mão firme no guiador e pedalou com força para não se desviar.
Jude pôs-se ao lado dele quando chegaram à estrada principal. — Aquilo não era um fantasma! — gritou por cima do vento.
— Não! — gritou Finn em resposta. — Não era!
— Então era o quê?
Finn olhou uma vez para trás, para a casa no penhasco, agora quase invisível por trás da chuva. — Alguém que precisa que a vila inteira pense que aquilo está assombrado. Alguém que não quer ninguém a contar pegadas de botas.
— E as ferramentas?
— Para não podermos voltar preparados.
Continuaram a pedalar, com a tempestade a empurrá-los pelas costas, e no sítio onde a estrada do penhasco desembocava na estrada costeira havia uma berlina antracite encostada à berma, com a frente virada para o mar. Estava limpa e era nova, exceto por uma amolgadela rasa por cima da roda traseira direita, o tipo de carro que pertencia à entrada de uma casa a três vilas dali, não estacionado à chuva no meio de lado nenhum.
Um homem estava sentado ao volante. Não estava ao telefone. Não estava à espera que a tempestade passasse. Estava simplesmente sentado, de mãos pousadas, a ver os cinco passarem de bicicleta da forma como uma pessoa olha para algo sobre o qual já tomou uma decisão.
Chase levantou a mão para acenar, por puro hábito de vila pequena, mas deixou-a cair a meio.
O homem não retribuiu o aceno. Não se mexeu sequer. Virou a cabeça, devagar e de forma regular, acompanhando-os pela estrada fora, e os limpa-para-brisas passaram uma vez pelo vidro, esconderam-lhe o rosto, voltaram a passar, e mostraram-no de novo, ainda a olhar.
Finn virou-se para a frente e pedalou com mais força. Atrás deles, por baixo do vento e da chuva, o motor de um carro pegou.
Capítulo 2 - Fora da Tempestade
Finn Mercer entrou na garagem a empurrar a bicicleta e ficou ali parado, a pingar, com a água a escorrer-lhe do casaco e a formar poças no cimento. Jude encostou a própria bicicleta à parede e sacudiu a chuva do cabelo como um cão.
— Vocês os dois parecem ter vindo a nadar para casa — disse a mãe, da porta da cozinha. Tinha um pano da loiça numa mão, e os olhos foram direitos aos rostos deles, depois às mãos, e depois voltaram. — Alguém está a sangrar?
— Só molhado — disse Finn.
— E esfolado — disse Jude. — E roubado. Alguém nos roubou as ferramentas, mãe. Os cinco estojos. Tiraram-nos das bicicletas enquanto um teto tentava matar-nos.
Laura Mercer não soltou nenhum grito. Não era mulher de se assustar dessa maneira. Olhou para Jude durante um longo segundo, decidiu que ele continuava com todos os membros no sítio e apontou para as escadas. — Roupa seca. Depois contam-me tudo, e quando digo tudo, quero a versão verdadeira, não aquela em que estiveram a fazer os trabalhos de casa o tempo inteiro.
A carrinha do pai entrou na garagem antes mesmo de eles terem mudado de roupa. Finn ouviu a porta, ouviu as vozes baixas no corredor, e quando os irmãos voltaram a descer, já com sweatshirts secas, Gavin Mercer, antigo detetive de Port Arbor e agora dono da sua própria agência de investigação privada, já estava à mesa da cozinha, de mangas arregaçadas, com duas canecas de chocolate quente a fumegar diante das cadeiras vazias.
Não tinha nenhum bloco de notas à frente. Essa foi a primeira surpresa. Limitou-se a recostar-se e a olhar para eles.
— A vossa mãe diz-me que uma casa tentou deixar-vos cair o teto em cima e que, no meio da confusão, alguém desapareceu com as vossas ferramentas — disse ele. — Sentem-se. Contem.
Finn contou. A ida de bicicleta, a tábua nova na janela partida, os rastos recentes dos pneus na lama, o guincho vindo do andar de cima, a trave a cair. Depois o barracão e as presilhas vazias onde antes estavam os cinco estojos de ferramentas. Jude acrescentou as partes que Finn disse sem emoção, que eram quase todas as assustadoras.
— As presilhas não estavam arrancadas — disse Jude. — Tinham sido abertas. Alguém sabia exatamente como funcionam as bolsas de bicicleta e levou o seu tempo.
O maxilar de Gavin contraiu-se, só um pouco. Pegou na própria caneca e voltou a pousá-la sem beber.
— Essa trave foi serrada?
— Cortes limpos — disse Finn. — Não era podridão. Alguém queria que ela caísse.
Durante um momento, o pai deles não disse nada. Depois fez aquilo que Finn só o vira fazer à mesa de jantar exatamente duas vezes antes, ambas quando um caso do trabalho se transformara em algo pior do que um caso. Ficou absolutamente imóvel.
— Vou dizer-vos o que sei — disse Gavin — uma vez. Já têm idade suficiente para factos, não palpites.
— Está bem — disse Finn.
— Há três meses que se fala de barcos a circular de noite neste troço da costa. Não barcos de pesca. Daqueles que transportam coisas que as pessoas não querem transportar à luz do dia. — Rodou a caneca um quarto de volta sobre a mesa. — Aquela casa no penhasco fica por cima de uma enseada que não se vê da estrada. Água funda, paredes de rocha, uma subida privada. Se eu quisesse movimentar contrabando sem que ninguém na estrada visse, era ali que o faria.
Jude inclinou-se para a frente. — E a história do fantasma mantém toda a gente afastada.
— Exatamente — concordou Gavin. — Ninguém visita uma casa assombrada. E uma casa que quase mata um miúdo curioso fica vazia.
— De quem é a casa? — perguntou Finn.
— No papel, ainda pertence à herança de Malcolm Castell — disse Gavin. — Ele morreu há dois anos, e o processo de inventário tem sido uma confusão desde então. Uma empresa de fachada diz que é dona do lugar, mas ninguém provou essa reivindicação, e não há nenhum encarregado legal a tratar da manutenção. — A boca dele ficou numa linha fina. — Muito conveniente para quem quer que esteja a usá-la.
— Castell — repetiu Jude, como se estivesse a arquivar o nome algures.
Finn sentiu o frio subir-lhe pelas meias encharcadas e instalar-se algures atrás das costelas. — Então é real. Não é só uma história.
— É real o suficiente para eu ainda hoje fazer uns telefonemas a pessoas que podem fazer alguma coisa quanto a isso. — Gavin levantou-se, e ali estava, a parte por que Finn estivera à espera, a parte em que o pai lhes dizia para ficarem em casa e deixarem os adultos tratar do assunto.
Mas não disse.
Em vez disso, Gavin ficou a olhar para os dois durante um longo momento, e algo no rosto dele mudou, como acontecia quando decidia tratá-los como colegas em vez de miúdos.
— Repararam no que importava. Pegadas recentes, uma viga cortada, os sacos desprendidos em vez de arrancados. — Disse aquilo como uma lista de factos, não como um elogio, o que, de alguma forma, fez com que soasse ainda mais a elogio. — É mais do que qualquer outra pessoa me trouxe.
Laura entrou vinda do corredor, já com o telemóvel na mão, a meio de uma mensagem para alguém. Apanhou o fim da conversa e lançou a Gavin um olhar que Finn não conseguiu decifrar.
— Eles não vão subir até àquela casa — disse ela.
— Não vão — concordou Gavin. — Já liguei ao Harkness por causa da viga, das ferramentas e do sedan. Se amanhã forem procurar esses rolos, ficam na estrada pública e no caminho costeiro assinalado. A partilha de localização fica ligada. Não atravessam a corrente, não se aproximam da entrada, não sobem em direção à casa e não se chegam perto de nenhum carro. Se alguma coisa parecer errada, telefonam e vêm para casa. Sem discussão.
— Voltam os dois — disse Laura. Encostou o telemóvel ao peito. — De dia. Fazem check-in no desvio de Kane. Em casa até ao meio-dia. Essa é a regra.
— Essa é a regra — disse Gavin.
Jude já estava de pé, fora da cadeira. — Fechado. Combinado. Assinado.
Finn não se mexeu tão depressa. Estava a observar o pai, que se virara para a janela e para a baía escura para lá dela, e que estava parado daquela maneira de um homem que acabou de perceber que uma coisa pequena afinal é uma coisa grande.
Saíram ao nascer do dia, com o vento de Breakwater Bay cortante e cheio de sal. As nuvens tinham levantado durante a noite, altas e finas, mas o frio no ar fez Finn agradecer a sweatshirt com capuz. Depois de os estojos enroláveis de ferramentas desaparecerem, tinha passado a pequena chave inglesa da bolsa do quadro para o bolso interior do casaco; agora a mão não parava de ir lá, virando aquele objeto antigo, gasto pelo polegar. Depois do inventário das ferramentas, também tinha prendido a lanterna de cabeça de luz vermelha no mesmo bolso.
— Estás outra vez com a mania da chave inglesa — disse Jude, a deslizar de bicicleta ao lado dele.
— Não estou com mania nenhuma.
— Já a giraste umas quarenta vezes. Vocês os dois estão a resolver alguma coisa?
— Ajuda-me a pensar.
— Ajuda-me a perceber que estás nervoso — disse Jude, mas estava a sorrir. Depois o sorriso desapareceu, porque tinham chegado ao desvio e nenhum dos dois abrandou para olhar para as árvores que escondiam a casa.
Deixaram as bicicletas atrás do barracão descascado à beira da estrada, fora da vista, e seguiram pelo trilho junto à costa.
Não encontraram as ferramentas. Nem um estojo, nem uma chave, nem um único pedaço de lona. Mas Jude encontrou algo melhor, agachado na lama onde o trilho encontrava as rochas.
— Finn.
Finn ajoelhou-se ao lado dele. Marcas de pneus, fundas e recentes, com um piso largo e cheio de saliências, nada parecido com o de um carro normal. As bordas ainda estavam nítidas, sem terem sido suavizadas pelo vento.
— Ontem à noite ou esta manhã — disse Finn.
Jude fotografou-as de três ângulos, depois passou para uma rocha plana e tocou com dois dedos numa mancha escura e reluzente. Esfregou os dedos um no outro e fez uma careta. — Não é óleo de motor. É mais espesso. Talvez massa de barco. — Estendeu os dedos na direção de Finn. — Cheira.
— Acredito em ti.
Dez metros mais à frente, entalado entre duas pedras, Finn encontrou um maço de cigarros esmagado, com letras estrangeiras. Fotografou-o sem lhe tocar, como Gavin lhe ensinara há muito tempo.
— Ninguém da nossa idade fuma isto — disse Jude. — Alguém esteve aqui parado à espera de um barco.
Finn olhou para a face da falésia, a percorrer o mapa na cabeça. — Temos de ver a água. Toda. Não daqui de baixo.
— O afloramento a norte — disse Jude. — Subimos lá quando éramos pequenos.
— Ainda somos pequenos.
— Sabes o que quero dizer.
Subiram. Era íngreme, mas não era nenhuma loucura para quem conhecesse os pontos de apoio, e eles conheciam. Perto do topo, uma plataforma plana de granito escondia-se sob uma saliência baixa, invisível a partir da água lá em baixo. Instalaram-se ali, de costas encostadas à pedra, e tiraram os binóculos e a máquina fotográfica com a objetiva comprida.
Dali de cima, o mapa batia certo. A enseada abria-se por baixo deles, uma entrada estreita cercada de rocha por três lados, invisível da estrada, mas perfeitamente clara vista do lado da água. E a casa por cima dela não estava adormecida.
— Corda no trilho — murmurou Jude, com a máquina junto ao olho. — Corda nova. Branca, sem desgaste do tempo.
— E o cais foi pintado. — Finn ajustou os binóculos. Um pedaço de cais de madeira avançava para dentro da enseada, com uma secção mais escura do que o resto, recente. Por cima, um fio fino e cinzento subia da chaminé e desfazia-se no céu. — Alguém acendeu uma lareira esta manhã.
— Fantasmas não precisam de se aquecer — disse Jude.
— Fantasmas não pintam cais.
Finn puxou do bloco de notas e, como as páginas claras refletiam a luz, ligou por um segundo a lanterna frontal vermelha para conseguir escrever, o brilho carmesim apenas suficiente para ver a própria mão e nada que alguém lá em baixo pudesse notar. Jude espreitou para o lado. — Está bem, isso foi mesmo inteligente. Finn desligou-a, prendeu-a de novo e voltaram a observar.
Dez minutos depois, chegou o primeiro barco.
Veio do sul, baixo, elegante e rápido, uma lancha a motor com o casco limpo demais e as linhas afiadas demais para ser o barco de pesca de alguém. Seguiu direita à boca da enseada, como se já tivesse feito aquilo uma centena de vezes.
— Câmara — disse Finn. — Agora.
— Já está. — Jude disparou uma sequência. — Sem números. Nem à proa, nem à popa. Isso não é legal.
— É de propósito.
Então um segundo barco contornou a ponta norte, maior, um cruzeiro de cabine com dois homens de pé junto à amurada, e avançou devagar, decidido, cortando a passagem ao barco mais pequeno perto da entrada da enseada.
Os dois barcos rodearam-se um ao outro. Mesmo a quase um quilómetro de distância, Finn conseguia distinguir as silhuetas dos homens, um deles a cortar o ar com gestos bruscos e furiosos, o outro apenas parado, de braços cruzados, a observar, paciente como um homem à espera que a chaleira ferve-se.
— Estão a discutir — disse Jude.
— Ou pior.
O estalo chegou pela água, seco, duro e definitivo, e ricocheteou no penhasco por baixo deles, fazendo-os estremecer aos dois.
Não tinha sido um estoiro do motor. Tinha sido um tiro.
O pequeno barco guinou violentamente para bombordo. O homem ao leme deu um safanão, ou caiu, Finn não conseguiu perceber, e a proa rodou descontrolada e embateu no barco maior com um grito de metal. Depois, o pequeno barco virou. Foi tudo muito rápido, a amurada mergulhou, a embarcação inteira rodou num turbilhão de água branca, e o homem foi projetado para longe. Veio à superfície a uns cinquenta metros, com uma mão cravada no ombro e a cabeça mal acima das vagas.
O barco grande não parou. Fez uma volta lenta, sem pressa, quase preguiçosa, e depois acelerou a fundo rumo à baía aberta e desapareceu para lá da ponta, deixando apenas um V de esteira a alargar-se, um homem dentro de água e nada mais.
Finn baixou os binóculos. As mãos não lhe estavam firmes.
— Dispararam contra ele e deixaram-no ali — disse Jude. A voz dele ficara baixa e sem expressão. — Simplesmente deixaram-no ali.
Lá em baixo, na enseada, o homem tentava nadar, um braço a abrir uma braçada desajeitada, o outro preso ao ombro, e estava a perder. A corrente apanhara-o, arrastando-o para as rochas onde as ondas rebentavam em espuma branca.
Finn já tinha o telemóvel na mão. Sem rede. Virou-o, levantou-o, procurou uma única barra de sinal contra a falésia. Nada. A rocha engolia a receção tal como no dia em que o teto caiu.
— Jude?
Jude verificou o seu e abanou a cabeça.
Olharam um para o outro. A estrada junto à costa estava vazia. Nenhuma casa dava para aquele trecho de água. Ninguém vinha, porque mais ninguém sabia.
— Temos de ir buscá-lo — disse Jude.
Finn já estava de pé. Nem sequer houve uma decisão, não realmente. Um homem estava a afogar-se a cinquenta metros dali e, naquele momento, não havia mais ninguém no mundo além dos dois. Tinham feito o curso de segurança aquática no centro comunitário. Sabiam remar. Não iam aproximar-se da casa nem perseguir ninguém. Iam tirar um homem da água antes que ele desaparecesse de vez.
Deixaram as bicicletas e o equipamento lá em cima e correram.
A descida era pior do que Finn se lembrava, com pedras soltas e mato a fugir-lhes debaixo dos pés, e fizeram-na meio a correr, meio a cair, agarrando-se a ramos para não irem de cabeça. Lá em baixo, a margem era só pedregulhos, erva e ondas a bater, e Finn viu primeiro o velho barco a remos de Sam Kane, puxado para trás de uma cortina de erva da praia. KANE estava gravado a fogo no painel de popa gasto pelo tempo, e havia dois remos presos lá dentro com corda.
— Ajuda-me — disse ele.
Arrastaram-no pelas rochas, a raspar, e empurraram-no para a rebentação. O frio atravessou os sapatos de Finn como um choque, e a corrente agarrou o casco no segundo em que ele flutuou. Finn trepou para dentro e pegou nos remos. Jude empurrou o barco e atirou-se lá para dentro logo atrás dele, quase os virando aos dois.
— Rema! — gritou Jude.
Finn remou.
A corrente era como um rio escondido, frio e implacável, e cada remada tinha de lutar contra ela. Jude ajoelhou-se na proa, uma mão na amurada, a perscrutar a água.
— À esquerda! Ainda a quarenta e cinco metros!
Finn remou com força até os ombros lhe arderem. Já conseguia ver o homem, uma forma escura que subia e desaparecia na ondulação, um braço a erguer-se uma vez, fraco, e depois a sumir-se.
— Ele está a ir ao fundo! — Jude debruçou-se para fora da proa, esticando o braço.
Finn enterrou os remos na água e pôs tudo o que ainda lhe restava naquele puxão. Dez metros. Cinco. A corrente tentou fazê-los rodar e ele corrigiu com força no remo de bombordo, de dentes cerrados.
O homem virou-se na ondulação, o rosto mesmo acima da água, os olhos fechados, a boca aberta. O braço ergueu-se mais uma vez, mal, e depois ele afundou-se.
Jude estendeu-se sobre a água negra, alongou-se até à ponta dos dedos e agarrou-o.
Capítulo 3 - O Homem que Desaparece
Jude agarrou-o.
A sua mão fechou-se em torno de um pulso frio, e o pulso tentou afundar-se. O homem na água pesava o dobro do que devia, puxado para baixo pela roupa encharcada e pela força da maré vazante, e durante um segundo péssimo Jude pensou que ia cair atrás dele. A outra mão bateu na amurada e segurou-se.
— Finn. Finn, agora.
Finn recolheu os remos num único movimento limpo e avançou por cima do banco do meio. O bote inclinou-se. Ele enfiou os dois braços por baixo dos ombros do desconhecido, firmou os calcanhares contra as costelas do casco e puxou. Os irmãos arrastaram o homem para fora da baía, centímetro horrível a centímetro horrível, por cima da amurada, para dentro do barco, e tudo se inclinou tanto que parecia que o mar se debruçava para espreitar.
— Vamos virar — disse Jude.
— Não vamos. — Finn atirou o peso para o outro lado. O bote balançou de volta, ficou suspenso por um instante, depois assentou com um gemido de madeira velha, água a chapinhar por cima dos ténis dos dois. — Vês? Não virámos.
O homem dobrou-se no fundo do barco e tossiu como se os pulmões lhe estivessem a sair aos pedaços. O casaco estava rasgado no ombro, e uma mancha espalhava-se por baixo, escura contra a claridade molhada da manhã que vinha da baía. Tremia tanto que os dentes lhe batiam.
Jude ajoelhou-se ao lado dele. — Ei. Ei, nós temos-te. Estás no barco. Estás bem.
Os olhos do homem entreabriram-se e reviraram. Quarenta anos, talvez. Rosto curtido pelo tempo, cabelo achatado pelo sal. A boca mexeu-se. Não saiu nada além de água.
— O ombro está a sangrar — disse Finn. Já estava de volta ao banco, com os remos nos toletes. — Faz pressão. A tua sweatshirt.
Jude arrancou a sweatshirt com capuz pela cabeça, amarrotou-a numa bola e empurrou-a contra a ferida. O homem estremeceu, mas não lutou contra ele. Jude inclinou todo o peso do corpo sobre aquilo, como o pai lhes tinha mostrado uma centena de vezes, cadeira da cozinha, ketchup a fazer de sangue, todos a gemer que já sabiam.
Afinal, não sabia. Afinal, sangue a sério era mais quente.
— Como se chama? — disse Jude. — Vá lá. Dê-me um nome. Qualquer coisa.
O homem murmurou um som que não era uma palavra.
Finn cravou os remos na água e puxou. A maré combateu-o a cada remada, deslizando para fora da baía p